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Carlos Nobre: agronegócio não pode seguir negacionismo de Donald Trump

Cientista Carlos Nobre afirma que o Brasil deve aproveitar a COP30 e tomar a liderança na questão do clima, inclusive o agronegócio

Ilustração: Daniel Medeiros/PlatôBR
Ilustração: Daniel Medeiros/PlatôBR

A COP30 ganha ainda mais importância após a eleição de Donald Trump, que, além de deixar o Acordo de Paris, de mitigação dos efeitos climáticos, sinalizou que as emissões de gases de efeito estufa vão crescer neste 2025, a exemplo do que ocorreu em sua primeira gestão. A avaliação é do climatologista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas em clima do mundo, para quem o negacionismo do governo Trump e das empresas que acompanham sua linha de pensamento aumenta o risco global de catástrofe climática e torna o evento em Belém, em novembro, primordial para o futuro do planeta.

Em entrevista à coluna, Nobre disse que a COP30 será a mais importante das COPs feitas até agora e que o Brasil deveria liderar o movimento mundial pela redução dos gases de efeito estufa. Para ele, enquanto o governo brasileiro tenta reduzir danos com o desmatamento zero, o agronegócio caminha mais devagar. “Estamos nessa emergência, a elevação da temperatura já chegando a 1,5 grau. Explodiram todos os eventos extremos climáticos no mundo inteiro, no Brasil também”, alertou.

Leia trechos da entrevista:

2024 foi o ano mais quente registrado na história, com a média da temperatura global 1,5 grau Celsius mais elevada do que nos níveis pré-industriais. Isso mostra uma falência da cooperação multilateral para enfrentar as mudanças climáticas?
A resposta é sim e não. Não, porque a ciência em 2022 não previa que a temperatura iria subir tanto em 2023 e em 2024, colocava-se que a temperatura chegaria no máximo em 1,3 grau, mas a temperatura explodiu. Então, em certo sentido, não se pode dizer que a falta de aceleração da busca de soluções é a culpada. E, sim, porque de fato as emissões não param de crescer. Em 1990, já se falava do risco da mudança climática e que as emissões deveriam ser zeradas até 2000. Estamos em 2025 e as emissões não pararam. Nesse sentido estamos caminhando numa trajetória muito perigosa e não há certeza de que vamos conseguir rapidamente reduzir as emissões.

Quais ações o governo brasileiro tem adotado para enfrentar internamente as mudanças climáticas?
A ação mais significativa que o governo tem adotado, desde janeiro de 2023, é tentar zerar o desmatamento de todos os biomas brasileiros. Tem havido avanço com a redução do desmatamento da Amazônia em 2023, que continuou caindo em 2024. No Cerrado, começou a cair nos últimos 6 meses pela primeira vez em vários anos, embora ainda seja alto. Também em 2023 e 2024 reduziu na mata atlântica. Em 2022, 50% das emissões brasileiras foram desmatamentos, principalmente na Amazônia e no Cerrado. As outras transições de emissões são mais complexas, porque há necessidade de usar cada vez menos energia de combustíveis fósseis e porque cerca de 25% das emissões brasileiras em 2022 foram da agropecuária, principalmente da pecuária. O Brasil vem acelerando a transição energética, no sentido de usar cada vez mais energias renováveis, solar, eólica, biocombustíveis e, em breve, começa também a utilizar hidrogênio verde. Então, nessa área de energia, o Brasil está indo [bem], mas na área da agropecuária, não.

O Brasil tem conseguido reduzir suas emissões de gases de efeito estufa?
Sem dúvida, o Brasil está num ritmo adequado, ainda não na agropecuária, que está num ritmo muito lento. Completando a segunda pergunta, explodiram os incêndios em 2024. Foi um recorde de incêndios na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal. Houve uma quantidade não desprezível de emissões pela queima dos biomas. Esse é um enorme risco. Os estudos, dados do INPI, mostram que, praticamente, todos os incêndios foram causados por humanos, não foram descarga elétrica ou causas naturais. O fogo degradou uma área muito grande e, infelizmente, há suspeita de que os incêndios tenham sido criminosos. Não foram, por exemplo, o pecuarista, o agricultor que coloca fogo para regenerar e o fogo escapou, não. Crime organizado colocando fogo, porque, como o crime organizado vinha, principalmente na Amazônia, desmatando e há décadas e décadas existe o mercado ilegal de terras, eles desmatavam, agora, com a eficiência em impedir o desmatamento, começaram a colocar fogo, porque, se não aparecer o brigadista, o fogo vai assumir uma área mesmo.

Com a eleição de Donald Trump, quais mudanças podem ser esperadas na política ambiental dos Estados Unidos?
Já houve mudança na política ambiental. Quando Trump foi presidente entre 2017 e 2020, as emissões dos gases estufa aumentaram nos Estados Unidos, eu diria que é muito provável que as emissões aumentem em 2025. Ele já abriu as portas para a exploração de petróleo e gás natural, também já anunciou uma grande redução no apoio que o governo Biden vinha dando para a transição energética para energias renováveis. Então, é muito provável que as emissões dos Estados Unidos passem a aumentar e muito grave a sinalização negacionista das mudanças climáticas, tirando os Estados Unidos do Acordo de Paris. É grave porque os Estados Unidos são o país mais rico do mundo e tinham uma obrigação e responsabilidade de contribuir muito para o Fundo Verde do Clima, criado lá atrás, e que, a partir de 2020, deveria ter gerado US$ 100 bilhões por ano. Na COP 29, os países em desenvolvimento pediram a esse Fundo Verde US$ 1,3 trilhão, mas os países ricos concordaram só com US$ 300 bilhões. Agora, saindo os Estados Unidos do Acordo de Paris, os desafios ficam muito grandes.

De que maneira a política ambiental de Trump pode influenciar as estratégias climáticas adotadas pelo Brasil?
A política ambiental de Trump pode influenciar nos Estados Unidos algumas grandes empresas, grandes setores financeiros que até se descompromissaram em reduzir as emissões e de combater a emergência climática, então isso pode ter um risco global. A pergunta é, isso vai afetar o Brasil? Nós esperamos que não! Nós esperamos que, ao contrário, o Brasil, liderando a COP 30, tem que ir para a direção oposta. Tem que liderar, acelerar muito, combater a emergência climática, reduzindo as emissões, mas também tem que aumentar a capacidade de adaptação de todas as populações, a capacidade de adaptação do setor agropecuária também e a proteção da biodiversidade. Então eu diria o contrário, agora com o Trump quatro anos, o Brasil tem que ser um dos grandes líderes mundiais. Não só o Brasil, mas certamente outros países, especialmente a China, que é o país que mais emite gás de efeito estufa, e acelerar demais a busca de soluções baseadas na natureza. Eu acho que o Brasil tem que ir nessa direção e o maior desafio é que o setor privado, principalmente o agronegócio, não vá numa linha como alguns setores financeiros e empresariais dos Estados Unidos de seguir o Trump e não mais ir na direção de combater a emergência climática.

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