A leitura sobre os efeitos das novas regras do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) abriu uma nova frente de disputa no mercado de benefícios. Após a divulgação de um estudo da Associação Brasileira das Empresas de Benefícios ao Trabalhador (ABBT) que aponta risco de desvio de finalidade dos vales refeição e alimentação, empresas que defendem a modernização do programa passaram a contestar publicamente esse diagnóstico.

Para o CEO da Caju, Eduardo del Giglio, a pesquisa encomendada pela ABBT “não é justa” e desconsidera o funcionamento real dos produtos hoje oferecidos no mercado.

“Se o RH segrega o benefício para alimentação, não existe possibilidade de desvio de finalidade. O trabalhador não consegue usar o recurso para outra coisa”, afirmou.

Para o executivo, o levantamento divulgado pela ABBT parte de uma premissa incorreta ao sugerir que o desejo do trabalhador se converteria automaticamente em uso fora da alimentação. “É uma campanha que a ABBT vem fazendo desde a edição do decreto das mudanças do PAT, porque não aceita mudança”.

As mudanças no PAT, regulamentadas por decreto publicado no fim de 2025, incluem a abertura dos arranjos fechados de benefícios, a interoperabilidade entre credenciadoras e emissores, a definição de teto para taxas cobradas dos estabelecimentos e a redução dos prazos de liquidação das operações. O governo sustenta que o novo modelo amplia a concorrência, reduz custos de intermediação e aumenta o poder de compra do trabalhador.

Na avaliação do CEO da Caju, o decreto publicado no fim de 2025 foi resultado de um debate iniciado em 2021 e buscou um ponto de equilíbrio. Ele criticou a postura da ABBT ao longo do processo.

“Foi inflexível. Não quis portabilidade, interoperabilidade, redução de preços ou de prazos. O mercado está evoluindo e a ABBT quer ficar no passado. Não é razoável supor que todo o mercado e o governo estejam errados e que apenas a ABBT esteja certa”, declarou.

A posição defendida pelo executivo é compartilhada por um grupo de entidades, entre elas a Associação Brasileira de Supermercados, a Associação Nacional de Restaurantes e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Em manifesto divulgado nesta semana, essas organizações expressaram apoio à manutenção e à modernização do PAT, afirmando que as mudanças preservam a natureza social do programa e fortalecem sua eficiência econômica, a concorrência e a segurança jurídica.

(Atualização às 15h50 de 11 de fevereiro de 2026: Após a publicação do texto, a ABBT entrou em contato com a coluna. A associação apontou que é favorável à interoperabilidade e que apresentou proposta para redução de taxas e prazos. A entidade se opõe apenas à portabilidade, por acreditar que é “inapropriada para o segmento de vale-refeição e alimentação”. “Não há ganho algum para o trabalhador e traz consequências perversas, como custos operacionais para os RH e uma potencial ‘guerra de incentivos’, que resultará em custos operacionais que serão repassados aos estabelecimentos comerciais”, disse a associação, apontando que a portabilidade é desnecessária, uma vez adotada a interoperabilidade.)