O Copom (Comitê de Política Monetária) sinalizou na última reunião que iniciará o processo de corte de juros em março. No mercado, a principal dúvida é o tamanho do ciclo de redução da taxa, atualmente em 15% ao ano. Enquanto o debate público segue nesse rumo, há quem divirja da decisão da autoridade monetária de diminuir a Selic.

Para o economista Fabio Kanczuk, ex-diretor do Banco Central e agora diretor de Macroeconomia da instituição financeira Asa, com as sinalizações recentes o BC deixou espaço aberto para um corte significativo de juros, para um patamar abaixo de 12%. Ele acredita, porém, que esse não é o caminho ideal.

“A comunicação [do BC] deixa o caminho aberto para cortar bastante. O Banco Central não fala de eleição, mas poderia sinalizar preocupação com a mudança de rumo da política econômica sem citar nomes. E não fez. Por isso, eu entendo que ele está disposto a um ciclo grande de cortes, mesmo eu achando que não seria a melhor decisão”, disse Kanczuk ao PlatôBR.

Eis os principais trechos da entrevista:

O Banco Central foi cauteloso na comunicação do Copom que sinalizou corte de juros em março?
Eu entendi que o Banco Central, apesar de afirmar que o momento é de serenidade, deixou completamente em aberto a possibilidade de um corte de 0,25 ponto percentual ou de 0,50 ponto percentual. Se a intenção fosse cortar a taxa em 0,25, a comunicação do BC teria sido mais explícita. Essa era a regra do jogo no passado. A minha leitura é que ficou em aberto. 

Por que manter essa abertura e não se comprometer desde já com um número?
Porque a diferença entre 0,25 e 0,50 é pequena e não está claro para ninguém qual seria a melhor opção. Além disso, é um estilo de comunicação deste Banco Central [refere-se à atual gestão da instituição] não sinalizar os próximos passos. 

Considerando as incertezas eleitorais e as turbulências externas, ainda há espaço para um ciclo maior de cortes de juros?
Eu separo esse debate em duas coisas. Uma é o que eu acho que deveria ser feito. Outra é o que eu acredito que o Banco Central fará. Do ponto de vista do que eu faria, eu não cortaria juros neste contexto. Há risco eleitoral e risco de o próximo governo, seja qual for, não entregar a sinalização fiscal necessária. Isso pode levar a um cenário de estresse, com o câmbio disparando.

E o que o senhor acredita que o Banco Central fará?
A comunicação deixa o caminho aberto para cortar bastante. O Banco Central não fala de eleição, mas poderia sinalizar preocupação com a mudança de rumo da política econômica sem citar nomes. E não fez. Por isso, eu entendo que ele está disposto a um ciclo grande de cortes, mesmo eu achando que não seria a melhor decisão.

Um ciclo de cortes grande levaria a taxa de juros para um patamar abaixo de 12%?
Sim. Abaixo de 12%, para algo em torno de 11 e pouco.

Na sua avaliação, o risco fiscal é o principal problema no horizonte?
Sim. A situação fiscal está muito mal encaminhada, com dívida crescente. Para um país emergente, isso costuma ser perigoso. A ausência de crise até aqui tem relação com um ambiente global que esteve mais tolerante por um período. Agora, o mundo volta a prestar atenção ao fiscal, basta olhar o debate em países como Estados Unidos e Japão.

E por que ainda não existe esse senso de urgência?
Em parte, porque há um fator de espera. Muitos investidores externos olham o quadro fiscal e consideram ruim, mas preferem aguardar a eleição antes de mudar uma posição de forma decisiva. Isso cria uma sensação de “parede se aproximando”, mas com a expectativa de que o choque não ocorra antes do ciclo eleitoral se definir.

O que levou a esse quadro de deterioração fiscal?
O arcabouço fiscal, desde o início, não era aritmeticamente suficiente para resolver o problema. Independentemente de críticas de desenho, a conta não fecha. Ele permite que a dívida siga crescendo por muitos anos e só estabilize em horizonte muito longo, algo como décadas. Isso não resolve o problema em prazo razoável.

O que precisa ser feito para resolver a questão fiscal no Brasil?
Seria necessário um plano mais ambicioso, com ajuste mais concentrado no início, para fazer a dívida parar de crescer em poucos anos. Isso passa por superávits primários maiores do que os previstos no arcabouço. Dá para buscar isso por aumento de impostos ou por corte de gastos. Eu, pessoalmente, acho ruim resolver apenas com imposto, mas, em tese, é uma via possível para fechar a conta.