Ciro, Cid, Camilo e uma lição para o Brasil
Muito do que você lerá em instantes parecerá estranho, absurdo até. Mas não é, acredite. E mesmo quem chegar ao final do texto, não tenho esperanças de que será convencido. Mas vale a tentativa. Vejamos.
Quem minimamente acompanha a política em outras praças imagina o Ceará como um cabedal de eleitores cegos pelo PT. Acredita ainda que o estado seja governado pelo partido há décadas, ainda mais após o ex-governador Camilo Santana (PT) ganhar holofotes e assumir o Ministério da Educação do governo Lula 3. Pois é. Na política, nem tudo que parece pato, anda como pato, e soa como pato, é pato. No Ceará então…
Camilo governou o estado por 6 anos, mas só virou uma figura petista quando começou a enxergar uma brecha na ausência de nomes que pudessem substituir o próprio Lula num futuro próximo. E isso só foi acontecer quando deixou o cargo, em abril de 2022, para disputar (e conquistar) uma vaga de senador.
De 1987 até 2007, o Ceará foi governado exclusivamente pelo PSDB: Tasso Jereissatti, Ciro Gomes, Lúcio Alcântara, Tasso novamente e Lúcio outra vez. O PSDB só deixou o governo em 2014, mas o grupo liderado por Ciro Gomes permaneceu governando até 2022, primeiro com Cid Gomes (PSB) por 8 anos) e, depois, com Camilo Santana.
Mas Camilo nunca foi o candidato escolhido pelo PT. Num acordo com o grupo de Ciro Gomes, o sucessor de Cid no governo seria um nome do Partido dos Trabalhadores. Às vésperas da convenção, em meio à Copa de 2014, a direção do PT dava como certa a escolha de Luizianne Lins para a disputa. Vale um adendo: dez anos antes, Luizianne havia vencido a prefeitura de Fortaleza pelo PT sem o apoio da executiva nacional e, principalmente, sem o apoio de Lula — ambos ficaram ao lado do candidato derrotado Inácio Arruda, do PCdoB. Era a chance que o partido queria para se redimir com a ex-prefeita e ainda ganhar o governo do estado.
Foi quando Ciro Gomes tirou da cartola uma figura quase irrelevante na política cearense, desconhecida por 70% dos cearenses (sendo generoso): um deputado estadual com base eleitoral na cidade de Barbalha, que ocupava o cargo de secretário das cidades: Camilo Santana.
Ele venceu a eleição, mas o PT não passou a governar o Ceará… Quem seguiu mandando foi Cid Gomes, assumindo a liderança de seu irmão Ciro, que focava os esforços na campanha pela Presidência.
Foi apenas em 2022 que Camilo e o governo do Ceará se tornaram, efetivamente, petistas. Aconteceu a ruptura entre o então poste Camilo Santana (com excelente avaliação popular, diga-se) e seus mentores, Ciro e Cid Gomes. Enquanto Ciro entrava em período sabático, chateado com a política nacional, Cid se ocupava em ser senador, ora votando com o governo Lula, ora nem indo para Brasília, como ocorreu na semana passada, na votação da indicação de Jorge Messias para o STF.
O PT até pode ter ampla votação no estado, mas o Ceará não é, nem de longe, um estado petista. Numa próxima oportunidade, falaremos sobre os últimos anos e sobre a chance gigantesca de o atual governador, Elmano Freitas (PT), eleito com Lula e Camilo, ser defenestrado por ninguém menos que o próprio Ciro Gomes — e adivinha em qual partido? PSDB, claro.
Pedro Senna é publicitário, analista político e profissional de marketing eleitoral
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