“Toda política é local.” A máxima ficou famosa na boca de Tip O’Neill, que comandou a Câmara dos Deputados dos Estados Unidos entre 1977 e 1987. Pois ele precisava ter visto a fila de Uber para chegar ao Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), em Brasília, em 18 de maio, quando teve início a Marcha dos Prefeitos, apelido do evento anualmente organizado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM).

Se nos Estados Unidos o sistema eleitoral incentiva o contato direto do cidadão com o parlamentar federal, aqui são os prefeitos que fazem o meio de campo entre o Brasil e Brasília. Atraí-los é o objetivo de parlamentares, empresas, bancos estatais e ministérios, todos presentes ao evento de quatro dias.

Segundo a CNM, mais de 15 mil pessoas se inscreveram para a Marcha de 2026, recorde do evento. Muitos prefeitos, vereadores, assessores e secretários municipais viajaram com passagens e diárias bancadas pelos cofres municipais. Injusto dizer que foram a passeio. Nos horários mais cheios, mal se conseguia andar pelos dois andares do evento. Quando não estavam por lá, os políticos iam ao Congresso Nacional pedir recursos e fotos aos parlamentares e também visitavam ministérios para resolver pendências.

No piso térreo do centro de convenções, uma solitária ambulância (em exibição, não à disposição) disputava atenção com um gigantesco Papai Noel iluminado no estande de outra empresa. Parecia ter pulado do trenó e caído na neve. Sentado, de braços abertos e barba aparada, supera 1,80 m. A ambulância é compreensível. Mas Papai Noel uma hora dessas?! Por quê?

Uma pista está na relação do Ministério da Cultura com as prefeituras. Em 2023, a Política Nacional Aldir Blanc (Lei 14.399/2022) começou o envio de até R$ 3 bilhões por ano. O dinheiro ajuda a bancar a cultura local, bem como festas, feiras e shows de relevância artística discutível.

A prestação de contas sobre esses gastos é, no eufemismo candango, “simplificada” pela Instrução Normativa MinC nº 19/2024, posteriormente alterada pelas Instruções Normativas MinC nº 25/2025 e nº 30/2026. No relatório de gestão enviado por meio do sistema federal Transferegov, municípios informam percentuais agregados e listas de editais, contratos, beneficiários e valores, mas não apresentam ao ministério o resultado de cada projeto. Essa fiscalização, no mínimo rara, fica com o próprio governo local.

O prefeito pode destinar, por exemplo, R$ 200 mil da verba da Aldir Blanc a uma festa natalina. Se o recurso for repassado por meio de um termo de execução cultural de até R$ 200 mil, a Lei 14.903/2024 permite que a prestação de contas seja feita com base em uma visita técnica. Na prática, a prefeitura apenas manda algumas fotos do evento pelo sistema e tudo fica por isso mesmo.

A quinhentos metros do Papai Noel, no maior auditório da Marcha, o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) testava sua força entre os presentes. “Lula, ladrão, seu lugar é na prisão!”, gritavam dezenas de pessoas — prefeitos, secretários municipais, assessores e curiosos — em resposta à provocação “E a milícia, Flávio? E o Vorcaro?”, vinda de um opositor solitário do filho de Jair Bolsonaro.

O constrangimento do simpático Paulo Ziulkoski, presidente da CNM, era notável. Antes de o senador subir ao púlpito, Ziulkoski lembrou a todos que a Marcha é um “movimento ecumênico”, aberto a todas as correntes. A oratória do senador é pouco senatorial. Com voz pouco mais firme do que a do pai, igualmente ansiosa, disse que o governo Bolsonaro teria entrado para o Guinness, o livro dos recordes, pelo combate à pandemia.

Na plateia, até os mais ivermectinados hesitaram. Recorde mundial? O único recorde brasileiro daquela época aconteceu no Big Brother Brasil. Em 31 de março de 2020, o paredão entre Felipe Prior, Manu Gavassi e Mari Gonzalez recebeu 1,5 bilhão de votos e foi reconhecido pelo Guinness como recorde de votos do público em um programa de televisão.

O senador falou muito sobre segurança pública. Em duas passagens, citou a Bahia — governada pelo PT desde 2007 — como exemplo de fracasso petista no combate à violência. O tom reapareceria um mês depois no “Brasil Sem Medo”, plano lançado pela pré-campanha em 18 de junho. O documento promete cinco novos presídios federais que, somados aos cinco existentes, formariam o complexo TREVA; propõe a castração química para condenados por estupro e abuso de mulheres e crianças; e afirma que o traficante que resistir e enfrentar o Estado “vai ser preso ou vai virar pó”. Sobre ex-policiais confusos quanto à diferença entre serviço público e serviço privado, nem uma linha.

A recepção a Flávio Bolsonaro na Marcha, aplaudidíssimo ao fim do discurso, pode levar ao equívoco de que os prefeitos são bolsonaristas. Bem, muitos até podem ser, mas o PL elegeu 516 prefeitos em 2024, atrás do PSD (887), do MDB (856), do PP (747) e do União Brasil (584). Na Câmara dos Deputados, uma queixa é recorrente entre assessores parlamentares: os prefeitos que apostaram em parlamentares lacradores — fortes nas redes sociais — descobrem, na hora de destravar uma pendência com um ministério, que esses padrinhos pouco conseguem resolver para a cidade.

A poucos metros do palco onde o senador inventava recordes, o estande do governo federal mentia de modo mais discreto. A Secretaria de Relações Institucionais da Presidência distribuiu o panfleto “Governo do Brasil: Presente nos Municípios”, cheio de conquistas: o Brasil novamente fora do Mapa da Fome da FAO, os 41 medicamentos e insumos do Farmácia Popular inteiramente gratuitos, uma queda de 43% na taxa nacional de abandono entre 2022 e 2024 — atribuída pelo governo ao Pé-de-Meia — e R$ 4,5 bilhões que o governo afirmava ter destinado ao SAMU em três anos.

Os 43% resultam da comparação entre 2022 e 2024, mas quase toda a queda já havia ocorrido em 2023, antes do programa: a taxa caiu de 6,4% para 3,7% e chegou a 3,6% no ano seguinte. Até agora, a única avaliação independente está em um texto para discussão do Insper, dos economistas Michael França e Daniel Duque, que estima que a proporção de jovens matriculados no ensino médio ou que já o concluíram aumentou 2,1 pontos percentuais entre os de 15 a 19 anos e 4,3 pontos entre os de 15 a 24 anos. Trata-se de uma evidência inicial de efeito positivo do Pé-de-Meia, mas não uma confirmação do número apresentado pelo governo.

Na discussão técnica dedicada ao Novo PAC, dois retratos do mesmo programa, difíceis de conciliar, dividiram a sala. Márcio Vale, secretário especial adjunto do PAC na Casa Civil, apresentou o balanço oficial: o governo dizia ter “executado” 89,5% do total de R$ 1,3 trilhão previsto para 2023–2026. A moderadora da CNM recusou-se a apresentar ali o estudo da própria entidade porque os dados das bases oficiais haviam sido propositalmente escondidos pelo governo. Climão.

O portal oficial do PAC, segundo o TCU, lista empreendimentos e percentuais, mas não exibe um indicador físico agregado que acompanhe exclusivamente a carteira municipal da seleção à entrega. Em setembro de 2025, o Tribunal deu 180 dias à Casa Civil para detalhar a execução física das ações financiadas por investimento privado e divulgar os indicadores usados para acompanhar as obras. Até agora, nada.

Nos estandes das empresas, os sistemas de ensino também disputavam a atenção dos prefeitos. Executivos do setor me explicaram o modelo de negócio. Vende-se um pacote — material didático, assessoria pedagógica sob medida, planejamento por metas — em contrato anual, com valor por aluno. A conta pode ser paga com recursos do Fundeb, da quota do salário-educação ou de emendas orçamentárias destinadas à educação. O argumento para sensibilizar o parlamentar é que um Ideb melhor renderia mais recursos federais, ainda que não automaticamente, e boa propaganda para todos os envolvidos.

A empresa não elabora formalmente o projeto que justifica a emenda, “mas pode ter um diálogo amistoso com a equipe do parlamentar”, como me explicou. Para a contratação sem licitação, por inexigibilidade, a prefeitura precisa demonstrar que a competição é inviável — a preferência por um sistema ou marca não basta — e instruir o processo com a razão da escolha, a justificativa de preço e os demais documentos exigidos. Um parecer técnico-pedagógico pode sustentar a escolha, mas não substitui essa demonstração. Segundo a atendente, a empresa fornece o material técnico para instruir o processo, inclusive pareceres assinados por nomes renomados da área.

As lições da Marcha dos Prefeitos de 2026 para as eleições de outubro são amplas. Todos os atores sociais e políticos querem benefícios sem custos. A CNM quer se firmar como a principal organização que atende aos interesses das prefeituras, sem se manchar como bolsonarista nem governista. Passou no teste. Presidenciáveis como Flávio Bolsonaro e Lula querem exagerar seus feitos sem sofrer ônus reputacional. Tudo indica que conseguem isso: no caso do senador, o dano reputacional tem vindo mais do escândalo Master; no do petista, da política fiscal kamikaze — e, neste último caso, está circunscrito, por enquanto, à Faria Lima e a alguns acadêmicos. Burocratas federais passam vergonha em discussões técnicas com funcionários da CNM, achando que conseguem enrolar plateias atentas. Passear pela Marcha é, enfim, uma Disney para voyeurs do cinismo.

Sérgio Praça é doutor em Ciência Política pela USP. Publicou, entre outros, os livros “Guerra à Corrupção: Lições da Lava Jato” e “Corrupção e Reforma Orçamentária no Brasil”