O governo da China voltou a se manifestar, nesta segunda-feira, 5, sobre o a ataque dos Estados Unidos à Venezuela, que resultou na prisão do ditador Nicolás Maduro. Em nota oficial divulgada por uma agência estatal, sem citar os Estados Unidos, o presidente chinês, Xi Jinping, disse que as “práticas de unilateralismo e intimidação hegemônica estão afetando gravemente” a ordem institucional. “Todos os países devem respeitar o direito de outros povos de escolher de maneira independente seu próprio caminho de desenvolvimento”, afirmou Jinping. “As grandes potências, em particular, devem dar o exemplo”, acrescentou.
Na reunião do Conselho de Segurança da ONU desta segunda, houve mais um recado: o representante chinês, Fu Cong, disse que os Estados Unidos “colocaram seus poderes acima do multilateralismo” e “pisotearam a soberania” da Venezuela. “A China está profundamente chocada e condena fortemente as ações ilegais e os atos de bullying dos EUA que já acontecem há algum tempo”, disse Cong.
Na avaliação de especialistas brasileiros ouvidos pelo PlatôBR, apesar do tom duro das declarações a escalada das críticas chinesas aos Estados Unidos não deve ampliar a tensão entre as duas potências. A tendência é que o debate permaneça no campo diplomático e retórico. Esses especialistas avaliam, porém, que o clima de apreensão nos países da América do Sul deve crescer, diante da disposição do presidente Donald Trump de aumentar a influência na região, o que pode respingar nas relações dessas nações com a China.
Embaixador do Brasil na União Europeia entre 1991 e 1999, Jorio Dauster diz que as cobranças da China são esperadas, diante das relações comerciais com a Venezuela, sobretudo no setor de petróleo. Quase 80% do produto venezuelano é comprado por empresas chinesas. Dauster entende que a tensão entre as duas potências não deve se agravar. Ele lembra que Trump afirmou, durante a entrevista coletiva no dia do ataque, que os chineses continuarão comprando o petróleo venezuelano e, com a retomada dos investimentos pelas empresas americanas, o volume exportado tende a aumentar.
“Não é esperado que esse debate entre Estados Unidos e China ultrapasse o campo diplomático, mas é necessário acompanhar o que Trump fará, já que está claro que ele quer aumentar sua influência na América do Sul. Ele já expulsou empresas chinesas do Panamá. Isso pode criar constrangimentos nas relações dos países da América do Sul com a China”, diz Dauster.
No curto prazo, o embaixador aposentado não vê espaço para mudanças nas relações comerciais entre os chineses e os países da América do Sul, já que investimentos vultosos são executados, por exemplo, no Brasil e até mesmo na Argentina, governada por Javier Milei, aliado de Trump. “No médio e longo prazo, precisamos acompanhar o que acontecerá e como Trump pretende agir para reduzir a influência chinesa na região”, acrescenta.
Rubens Barbosa, embaixador do Brasil nos Estados Unidos entre 1999 e 2004, diz que a China tende a concentrar as ações no caso do ataque à Venezuela no campo diplomático, sem criar maiores conflitos com o governo Trump. Entretanto, ele afirmou que a tensão entre os países da América do Sul aumentará diante da disposição do americano de dominar o continente. Segundo Barbosa, há uma clara disposição do governo americano de reduzir a influência dos chineses na região.
“Os Estados Unidos têm um presidente imprevisível e tudo pode acontecer. O ataque à Venezuela não é surpresa e esses planos estavam apontados na estratégia nacional de segurança dos Estados Unidos, que manifesta a intenção de aumentar a influência no continente. Um novo ataque na Venezuela não é descartado e vai depender da postura da presidente interina [Delcy Rodríguez]”, disse.
As primeiras manifestações de Pequim foram feitas ainda no dia da ação militar americana. O Ministério das Relações Exteriores chinês afirmou ainda no sábado, 3, que estava “profundamente chocado” com os bombardeiros. No dia seguinte, o governo de Xi Jinping pediu que o governo Donald Trump libertasse imediatamente o ditador venezuelano e sua mulher, Cilia Flores. Já nesta segunda, foi a vez de o próprio Xi fazer uma manifestação por meio de uma agência de notícias oficial. Há anos a China vem tentando ampliar a influência na América Latina. Uma das iniciativas é a chamada Nova Rota da Seda, em que o governo chinês oferece parcerias, por exemplo, na área de infraestrutura de modo a ampliar os laços com os países que aceitam a parceria.
