Festinhas para atrair os poderosos em Brasília nunca foram novidade.
O que Daniel Vorcaro fez foi amplificar isso de maneira tão extravagante e exagerada que a rede, naturalmente, pegou mais peixe.
Desde a explosão do escândalo do Banco Master, a piadinha com sorriso amarelo em Brasília é no sentido de: “Eu não participei das festas de Vorcaro… (silêncio) Mas só porque ele não me convidou”.
Era luxo demais, charuto demais, uísque demais, mulher demais, farra demais. E sem fim.
Tinha método.
Encontros íntimos — esses sobre os quais há um esforço tremendo em Brasília para não deixar vazar — são parte do negócio e da estratégia. É trabalho. Com lazer, é verdade, mas trabalho.
Quando se convida uma autoridade da República para uma festa regada a tudo e mais um pouco, na cabeça dos anfitriões, demonstra-se, primeiramente, empatia, compreensão com “o peso” da rotina no centro do poder.
O Macallan ou as suíças funcionam — dentro desse raciocínio, registre-se — como uma forma de dizer que se reconhece que aquela autoridade precisa, digamos, desopilar.
Desopilar, aliás, é um ponto fraco dos poderosos que desembarcam em Brasília. Muitos estão longe da família, idealizam o trabalho na capital federal, se decepcionam e têm dificuldades de lidar com as pressões.
Com as festinhas, Vorcaro — e tantos outros antes dele, com menos investimento e ostentação — transformava gente que se acha poderosa demais em pessoas comuns, frágeis, que precisam “descansar” e “aproveitar a vida”.
É aí que entrava o trabalho.
Assim, o banqueiro conquistava confiança extrema, lealdade sem manchas e uma intimidade que nenhuma reunião de negócio em gabinete proporciona.
Parceiros de trabalho viravam “parças”. O banqueiro Daniel Vorcaro virava Dani. Ministro da Suprema Corte era chamado pelo primeiro nome, sem nenhum aposto. E por aí vai.
Na última semana, a coluna ouviu quase uma dezena de lideranças em Brasília para tentar entender a essência dessas festas, do ponto de vista da construção de relacionamento no poder.
“Esses convescotes funcionam para formar grupo de domínio. Igual aqueles aparelhos para atrair mosca, sabe? É uma forma mais fácil de controlar um grupo maior”, resumiu um ex-deputado, que decidiu se afastar de Brasília.
“Ninguém está falando, mas em várias festas de Brasília com autoridades há drogas também”, foi além outro ex-parlamentar, falando de maneira genérica, sem provas e preservando nomes.
No jogo de Brasília, sempre haverá quem tenha algo a oferecer e alguém para aceitar. De caneta a apartamento milionário. Todo mundo tem um preço de brinde?
O toma-lá-dá-cá que muda realmente os ventos do poder ocorre fora dos plenários e dos palácios. É nas festinhas, com ou sem suíças, que corruptos e corruptores se fazem íntimos e criam cumplicidade.
Antes de Vorcaro, vale lembrar, donos de construtoras, empreiteiras e frigoríficos já dominaram e tiveram Brasília na mão.
Vorcaro, porém, escalou a produção de um jeito nunca antes visto. O olhinho de gente que nunca tinha brilhado brilhou diante do envolvente poderoso do Master.
Em meio à Lava Jato, quando Vorcaro era um jovem mineiro desconhecido e sem CDBs, empresas e órgãos da administração pública investiram pesado em “governança e compliance”. Equipes foram formadas. Contratações a peso de ouro.
Com a implosão da operação, no governo de Jair Bolsonaro, o empenho e a modinha com o tema — sim, virou modinha — perderam força.
Provavelmente, a ascensão e o declínio de Vorcaro vão mexer, de novo, com a forma como empresas se relacionam com e em Brasília. E em como autoridades lidam com essas empresas.
A situação sem precedentes deve servir de alerta para os figurões de bets e terras raras, por exemplo.
Se tiver um mínimo de juízo — e não duvide se não tiver —, a turma vai pisar em ovos, com o perdão do clichê.
Até o próximo escândalo.

