Por anos, a Agropecuária Palma foi sinônimo de prosperidade e poder no agronegócio goiano. Fundada e expandida por Joaquim Roriz, ex-governador do Distrito Federal, a fazenda em Luziânia, município de Goiás que integra o chamado Entorno de Brasília, tornou-se um gigante regional do leite e derivados, sustentando o clã mesmo quando a carreira política do patriarca entrou em declínio.
Após a morte de Roriz, em 2018, porém, a propriedade virou motivo de uma intensa batalha entre as filhas do ex-governador. Jaqueline, 63 anos, e Liliane, 59, cortaram laços com a irmã Weslliane, 64, e passaram a disputar na Justiça o destino da herança milionária.
O episódio constrangedor mais recente ocorreu no início de dezembro, quando a Justiça de Goiás determinou a reintegração de posse da fazenda Campo Belo, uma das áreas que integram o complexo da Palma. A decisão atingiu diretamente Liliane Roriz, sócia da empresa e que ocupava a área com o marido. O cumprimento do mandado foi acompanhado por forte aparato policial e incluiu o levantamento judicial de bens existentes no local.
A ação de reintegração atendeu a um pedido de Weslliane Roriz, irmã mais velha e administradora da Agropecuária Palma, escolhida pelo próprio Joaquim Roriz para tocar o negócio enquanto Liliane e Jaqueline se dedicavam a sucedê-lo na vida pública em Brasília – as duas chegaram a ser eleitas deputadas.
No processo, a administração da Palma sustentou que a ocupação da propriedade por Liliane e pelo marido foi feita a partir de um combinado verbal, mas passou a contrariar os interesses da empresa matriz. A ação menciona a manutenção de cerca de 600 cabeças de gado dentro da área e a extração ilegal de eucalipto para fins comerciais sem a participação da Palma. O caso está agora no STJ, com o julgamento de um recurso previsto para fevereiro, na volta do recesso judiciário.
Após o despejo de Liliane, a administração da Palma também notificou extraoficialmente Jaqueline Roriz a deixar a fazenda Jacobina, no mesmo complexo rural. O caso não foi aos tribunais porque Jaqueline não integra formalmente o quadro societário da empresa. Ela deixou a sociedade quando optou por entrar para a política. Desde então, Weslliane e Liliane são as únicas sócias do negócio, com 50% cada, e expõem publicamente diferenças sobre o destino do patrimônio que herdaram do pai.

Agropecuária Palma, em Luziânia: herança de R$ 300 milhões e que pode arruinar o clã Roriz (Foto: Divulgação)
Disputa e barracos públicos
Só a fazenda Palma está avaliada em mais de R$ 300 milhões, o que inclui terras, equipamentos e o próprio valor da empresa no mercado. O negócio já foi considerado como a principal fonte de renda para os integrantes do clã, incluindo a ex-primeira-dama Weslian Roriz, que anos atrás passou a viver com a filha mais velha.
A briga passou a ter reflexos diretos na condução do negócio. Surgiram dificuldades, por exemplo, para acesso a linhas de crédito. Também passou a faltar infraestrutura para escoar a produção. Nos últimos meses, Weslliane tem batido à porta de donos de restaurantes para vender ao menos parte do que é produzido na propriedade. Um desses estabelecimentos, frequentado pela elite de Brasília, adquiriu 600 litros de leite em um mês para ajudar.
A fazenda tem mais de mil vacas leiteiras. Nos tempos áureos, seu faturamento mensal chegou a girar em torno de R$ 2 milhões. Com mais de 12 mil hectares, a propriedade teve seu auge durante os mandatos de Roriz no Palácio do Buriti, a sede do governo do Distrito Federal. Mais tarde, com o avanço da idade e os problemas de saúde, o ex-governador delegou a administração a Weslliane, a filha que ele considerava ter o perfil mais adequado para a tarefa. Roriz governou o Distrito Federal por quatro mandatos – o primeiro deles, biônico, por indicação de José Sarney.
Antes de morrer, Roriz deixou também outra empresa para as três filhas: a JJL, administradora voltada à locação dos imóveis comerciais da família. Além de salas para escritórios, a firma controla a antiga sede comercial da própria Palma. Como ocorreu na agropecuária, o patriarca dividiu igualmente a JJL doando 33% das participações para cada filha. Tempos depois, Jaqueline negociou suas cotas com Liliane, que assumiu o controle da empresa. A imobiliária é avaliada em cerca de R$ 200 milhões.
Os cerca de R$ 500 milhões somados entre as duas empresas do espólio do clã seguem alimentando o distanciamento entre as irmãs, com trocas de acusações, inclusive em público. Na corrida pela herança, Jaqueline se uniu a Liliane para engrossar as críticas contra o modelo de gestão de Weslliane na condução da Palma. As duas querem a destituição da primogênita de Roriz como gestora da fazenda.
Em julho de 2024, Liliane foi à sede da fazenda e despejou xingamentos sobre a irmã Weslliane. A confusão foi gravada por Weslliane e o vídeo acabou na internet. “Papai te achava horrorosa”, disparou Liliane a certa altura. Esse barraco também foi parar na Justiça. A primogênita conseguiu uma medida protetiva que impedia Liliane de se aproximar da sede da fazenda.
A briga tem outro capítulo, que envolve a venda da mansão da família no Park Way, região de condomínios localizada nos arredores de Brasília. Com 20 mil metros quadrados, o imóvel era o quartel-general de Joaquim Roriz no auge de sua carreira política. A mansão foi negociada por Jaqueline e pelo filho, Joaquim Neto, com base em uma procuração assinada pela matriarca. O valor do negócio, R$ 5 milhões, teve que ser depositado pelo comprador em juízo.
Dona Weslian, a matriarca, não viu até hoje a cor do dinheiro. A ex-primeira-dama, aliás, hoje depende das filhas para viver. Ela ficou conhecida nacionalmente nas eleições de 2010, quando substituiu Roriz na disputa pelo governo do Distrito Federal e, durante um debate na televisão, se confundiu ao elaborar uma resposta sobre escândalos de corrupção, “No meu governo não vai ter irregularidades nenhuma (sic). Tudo aquilo que a gente for fazer, não vamos combater nenhuma corrupção. (…) Eu quero defender toda aquela corrupção”, disse.
Aos 84 anos e sem renda fixa, a ex-primeira-dama não esconde a tristeza pela crise entre as filhas, que acabou por respingar nela própria. E mais um dos muitos episódios do barraco familiar, Liliane, incomodada com a proximidade entre a ex-primeira-dama e a irmã mais velha, chegou a dizer que dona Weslian não deveria mais se considerar sua mãe. “Ela (dona Weslian) está muito triste. Imagina o que deve ser ouvir de uma das filhas que não é mais mãe dela? Ela sempre se dedicou para agradar as três meninas. Não deve ser fácil”, disse ao PlatôBR uma amiga da família, sob reserva.
O peso do passado
O enredo da disputa patrimonial se confunde com o declínio político do clã Roriz. Quando era deputada federal, Jaqueline foi tragada pela Operação Caixa de Pandora e afastada da vida pública. Liliane foi eleita deputada distrital por dois mandatos e também teve a carreira interrompida pela Justiça Eleitoral, em 2018, quando foi condenada por suposta compras de votos. Na linha de sucessão está Joaquim Neto, o filho de Jaqueline, filiado ao PL. Ele é titular de uma das 24 cadeiras da Câmara Legislativa do Distrito Federal desde 2022 e o político tentará a reeleição neste ano.

As bodas de ouro de Joaquim e Weslian Roriz em 2010: família unida é coisa do passado (Foto: Reprodução)
O que dizem as personagens da trama
Procurada, a defesa de Liliane Roriz afirmou que a administração da Agropecuária Palma está concentrada de forma irregular em Weslliane, que estaria utilizando o patrimônio “de forma personalíssima, em desvio da finalidade empresarial”. Em nota, os advogados disseram ainda que há “provas documentais de retenção de lucros, transferências financeiras e uso privado de bens da empresa” em prejuízo da ex-deputada e que o pedido de reintegração de posse da fazenda foi usado como “instrumento de pressão e intimidação” e teve caráter “retaliatório”.
Jaqueline Roriz preferiu não se pronunciar, assim como seu filho, Joaquim Neto, que disse não comentar questões de interesse unicamente familiar.
Já os advogados de Weslliane refutaram as acusações e declararam que as contas da Palma foram colocadas à disposição do restante da família. Sobre a reintegração de posse, disseram que a medida está respaldada pela Justiça em diferentes instâncias e teve como único objetivo preservar o patrimônio da empresa construída por Joaquim Roriz. Weslliane disse, ainda por meio dos advogados, não se opor à possibilidade de um acordo com as irmãs, apesar de até agora todas as tentativas nesse sentido tenham se mostrado frustradas.
