Ao contrário do que se temia no início, o tarifaço dos Estados Unidos trouxe um efeito inesperado para o setor de saúde brasileiro: a desvalorização do dólar acabou beneficiando um sistema altamente dependente de importações. Para uma área que compra do exterior mais de 70% dos insumos hospitalares e tecnológicos, a queda da moeda americana reduziu custos e até pode ajudar a conter a inflação.
“Com o dólar mais fraco, os custos em moeda americana caem e a tendência é de redução da inflação. O setor de saúde está sendo beneficiado, ao contrário do que se imaginava”, afirmou o presidente do Instituto Coalizão Saúde (Icos), Giovanni Cerri.
Segundo Cerri, o temor inicial era que a valorização do dólar encarecesse produtos essenciais, de agulhas e seringas até respiradores e aparelhos de diagnóstico por imagem. Mas a reação cambial seguiu na direção oposta.
O diagnóstico do Icos, no entanto, segue sendo de que o Brasil está “estruturalmente vulnerável” por depender tanto de importações. Produtos básicos como luvas, agulhas e respiradores continuam majoritariamente comprados no exterior, apesar de poderem ser produzidos no país. Já equipamentos de alta tecnologia, como aparelhos de ressonância magnética, ainda têm alguma produção local, mas não em escala suficiente.
“Na última década, a indústria da saúde se enfraqueceu. Perdemos capacidade produtiva e passamos a depender de itens que antes fabricávamos aqui. É preciso uma estratégia de governo para reindustrializar a saúde”, disse Cerri.
A preocupação do setor chegou a ser discutida em uma reunião com o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy. No encontro, Levy avaliou que o impacto do tarifaço sobre a saúde seria marginal e que a tendência do câmbio deve continuar favorecendo os importadores.