Vamos, por um momento, esquecer que o presidente Donald Trump (Partido Republicano) é o mais imprevisível da história. Ele não tem bom conhecimento de economia, comércio exterior, política internacional nem do Brasil. Tem, como o presidente Lula (PT), ótimo instinto político. Com o senador Flávio Bolsonaro (PL), compartilha um semblante ideológico de extrema-direita.

Trump não tem candidato predileto à Presidência do Brasil. Quem acredita em alinhamento entre ele, seu partido e o bolsonarismo está sendo ingênuo, como o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL). Está equivocado, como quem vê nas tarifas uma ideologia trumpista coerente, de reindustrialização dos Estados Unidos. E ignora que esse estranhamento, puramente unilateral, jamais será resolvido — nem minimamente — pela ação de burocratas e diplomatas dos dois países. Lula ao menos tem deferência por algum conhecimento técnico. Trump nunca teve nem terá e, nesse quesito, é pior do que o próprio Jair Bolsonaro.

Comecemos pelos números. Quando Trump impôs o primeiro tarifaço ao Brasil, em julho do ano passado, sob o argumento de defender Jair Bolsonaro, a Quaest registrou, pouco depois, que 74% dos brasileiros temiam o impacto das tarifas sobre a vida da própria família. O recado é simples: uma sanção anunciada em nome de um réu não fortalece o réu; pune quem a celebra. E o bolsonarismo celebrou.

Diante do segundo tarifaço — montado pela representação comercial americana, a USTR, com citações diretas contra o Pix —, Eduardo Bolsonaro (PL) resolveu afirmar, em entrevista à TMC News, que “os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como, por exemplo, o Zelle”, e que, por isso, “dá para você ir para uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos”. O filho do ex-presidente parecia propor trocar um sistema público e gratuito pela plataforma privada de grandes bancos dos Estados Unidos. No dia seguinte, diante da repercussão, o próprio Eduardo correu para desmentir a interpretação, mas o estrago estava feito.

Não é a primeira vez que o campo bolsonarista mira o Pix. Em janeiro do ano passado, o deputado Nikolas Ferreira (PL) turbinou a desinformação de que o governo passaria a vigiar e taxar as transferências instantâneas. A reação foi tão negativa que o Ministério da Fazenda recuou em 15 dias, revogando a instrução normativa que ampliava a fiscalização. Vitória do bolsonarismo.

Enquanto insistirem em transformar o Pix em alvo — agora com a ajuda involuntária do novo tarifaço, que será discutido em audiência marcada para 6 de julho —, seguirão entregando a Lula um discurso facílimo e correto, que só traz manchetes positivas.

Sérgio Praça é doutor em Ciência Política pela USP. Publicou, entre outros, os livros “Guerra à Corrupção: Lições da Lava Jato” e “Corrupção e Reforma Orçamentária no Brasil”