O economista e filósofo Eduardo Giannetti, imortal da Academia Brasileira de Letras, reflete em seu mais recente livro, “Imortalidades”, sobre a condição humana diante da certeza da morte e as diferentes formas de busca pela perenidade. Em uma conversa franca e descontraída em sua casa com o Papo Amado, do canal Amado Mundo, Gianetti abordou desde a ancestralidade do anseio por permanência até os dilemas filosóficos e éticos da possível conquista da imortalidade.
Ele também discutiu sua trajetória intelectual, revelando o método minucioso que desenvolveu ao longo de décadas para registrar leituras e reflexões, e compartilhou suas preocupações centrais em relação ao Brasil contemporâneo: o aprimoramento da democracia, a redução da desigualdade e a necessidade de superar a polarização raivosa que marca o debate político.
Eduardo Giannetti alertou ainda para os riscos da hiperconectividade, classificando o uso compulsivo das novas tecnologias como uma “cracolândia digital”.
A seguir, os principais trechos da entrevista. Assista ao fim do texto ao vídeo.
No seu livro “Imortalidades”, você lembra que a morte não é o tema principal do livro, mas sim a afirmação da vida, a afirmação da vida de certa maneira se faz necessária pela inescapabilidade da morte. Por que é preciso que a gente afirme a vida?
Talvez a força mais poderosa da existência seja o desejo de sobreviver, de existir. Tudo que vive se aferra à vida. Cada célula do nosso corpo luta para viver e para continuar vivendo, do mais simples ao mais complexo organismo. Esse desejo de permanecer no reino dos vivos preside a existência. A diferença para o homem, para o ser humano, é que nós temos a ciência antecipada da morte, então nós buscamos, de alguma maneira, encontrar formas de perpetuação. A estrutura do livro, o argumento do livro é que essas formas de perpetuação, de perenidade, de busca de perenidade, são fundamentalmente quatro, cada uma das partes do livro é dedicada a uma delas. É inescapável da condição humana esse anseio, acho que todo ser humano se pergunta, afinal de contas, o que é tudo isso, o que significa estar aqui, consciente de que existe e sabendo que deixará de existir. Houve um tempo em que não existimos e haverá um tempo em que não mais existiremos, e o que significa tudo isso?
Você acha que essas reflexões são feitas por todo mundo, em algum grau?
Eu acredito que sim, eu procuro mostrar com evidências no livro que isso remonta a mais antiga ancestralidade do animal humano. Olha que coisa curiosa: a pedra foi usada para fazer túmulo antes de ser usada para moradia, porque a casa dos mortos é eterna e a dos vivos é provisória. O cuidado com os mortos mostra esse valor que se atribui ao além, ao que vem depois. Isso permeia toda a existência humana.
Logo no primeiro texto, você faz uma das perguntas que são centrais da filosofia, que é: “quem sou eu?”. Ela é uma busca eterna e irrespondível?
Eu acho que é eterna, ela está sempre se renovando, não há uma resposta final conclusiva. E o mistério da existência não se rende a nenhum tipo de explicação, pelo menos nos modos como nós, até hoje, conseguimos tentar dar conta disso. A coisa é mais complicada, porque suponha que encontre uma resposta. ‘Ah, eu já sei o que está acontecendo, tudo isso não passa disso. Deus criador, um hacker ET entediado, o vômito de Mbombo, as mitologias’.
Filosoficamente ou psicanaliticamente, a vida eterna não é atordoante?
Aí é uma outra questão. Essa é uma questão interessante. É uma questão filosófica. Mas a questão da exequibilidade está posta. Para mim, hoje, é uma questão de tempo. Talvez, em centenas ou milhares de anos, vai ter essa opção. Aí você levanta o tema que é fundamental. Vale a pena viver para sempre? É uma belíssima discussão e é nela que eu procurei aprofundar. Dado que eu não sou biomédico, eu não sou biólogo, então…
Vale a pena?
De novo, eu comecei o livro considerando-me um imortalista. Ou seja, enquanto me for dada a chance, eu quero viver mais um dia. Como tudo que vive, eu também me aferro à vida. Mas isso é um impulso pré-reflexivo. Quando você para para pensar, a coisa fica muito mais complicada. A primeira questão: quais são os termos da imortalidade? A segunda questão: é só você? São poucos? Ou é a totalidade dos seres humanos? As três opções têm problemas seríssimos. A vida cansa, mas ela também se renova. E ela costuma cansar quando os nossos sentidos e o nosso vigor, o nosso elã, já está muito enfraquecido pela passagem do tempo.
Como você organiza a sua cabeça? Qual é o seu método?
Eu fui construindo isso ao longo da minha vida, nos últimos 50 anos. Eu tive uma experiência na faculdade que me deixou bastante angustiado na época. Eu lia os livros que eram pedidos, gostava, achava que tinha feito o que eu precisava fazer. Um mês depois eu me perguntava: o que ficou daquela leitura? E eu fiquei arrasado, porque não ficava quase nada. Eu falei: ‘mas não é possível, eu li esse livro há dois meses atrás, eu já não lembro quase, quase nada. Tem alguma coisa errada’. Eu falei: ‘não, isso não pode continuar. Eu vou começar a anotar por escrito, num caderno, parágrafo por parágrafo, o que eu estou lendo’. Então investi, peguei um livro que tinha se indicado, investi um tempo enorme para ter tudo anotado e registrado no meu caderno. Aí eu me perguntei, três meses depois, o que eu lembrava. Eu lembrava quase tudo. Eu era capaz de dizer uma passagem do livro porque eu tinha memorizado. Adotei como disciplina, toda vez que eu ler um texto que me parece importante para a minha vida, eu vou parar e vou fazer o exercício da leitura microscópica.
Qual é o seu principal interesse hoje na política brasileira?
Duas coisas. Aprimoramento da democracia e preservação de uma democracia aprimorada institucionalmente. E a redução da desigualdade. O Brasil tem uma desigualdade com a qual nós não podemos conviver, porque ela é tóxica de muitas maneiras para nossa vida cotidiana. Agora, o sistema político brasileiro não se faz representar pela ampla maioria de brasileiros, que almeja uma sociedade menos desigual e com mais oportunidades generosas para que cada ser humano possa desenvolver o seu pleno potencial humano. Isso é que é o problema.
O que você percebe, de uma maneira geral, que vai ser o tom do debate eleitoral no ano que vem?
Eu torço, francamente, para que o Brasil vire a página de Lula versus Bolsonaro. Para que nenhum dos dois apareça na cédula. Eu acho que vai ser um grande alívio e vai nos dar uma chance de superar. Você votou no Lula na última? Votei. Em Bolsonaro, eu não voto em nenhuma circunstância. Nenhuma circunstância. E dificilmente votarei em alguém que acredita em Bolsonaro. Dificilmente não. Eu acho que eu não voto em alguém que se aproxime, ainda que com alguma restrição, mas que endosse.
Por que você não tem celular?
Eu vou te dizer, eu tenho, mas toda vez que toca eu levo um susto, porque eu não dou meu número para ninguém. É só para pessoas que realmente precisam falar comigo. Porque eu luto, é uma trincheira, é um corpo a corpo, para preservar a minha capacidade de foco e de atenção no dia a dia. Eu acho essas novas tecnologias devastadoras da nossa capacidade de atenção. Eu tenho muito medo de entrar na cracolândia digital e ficar completamente dispersivo e sujeito a estímulos baratos, intermitentes a todo momento. Mas é um corpo a corpo, todo dia enfrenta-se… Essa coisa da dieta da informação… Você está sempre querendo a próxima dose. Você quer mais, você quer mais, você quer mais. Essas tecnologias têm uma característica que é um pouco isso, são pequenas recompensas fáceis, sempre ao seu alcance.