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Por que a projeção de inflação segue em alta apesar de choque de juros

Alta realizada na taxa Selic e a perspectiva de mais uma aumento não são suficientes para ancorar expectativas do mercado e custo para o governo aumenta a cada semana

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Há dez semanas, já de olho no impacto defasado que a taxa Selic tem na economia real, o Banco Central anunciou um choque de juros a ser implementado ao longo de três meses, na expectativa de que o efeito pleno da medida se materializasse numa inflação menor em 2026. Porém, há nove semanas, analistas, investidores e consultores projetam IPCA mais alto para o ano que vem, segundo as pesquisas com o mercado financeiro e consultorias feitas pelo BC.

A dificuldade em ancorar as expectativas de inflação futura pode ser explicada por três fatores: i) a percepção de que o governo aceita um patamar de preços mais para o teto da meta de 4,5% ao ano do que para o centro, de 3%, ii) as incertezas em relação ao controle de gastos públicos para estancar o crescimento do endividamento do governo federal diante da queda de popularidade do presidente Lula iii) a troca no comando do BC no início deste ano, que faz com que a nova diretoria ainda precise de um tempo para construir sua credibilidade junto ao mercado.

“O BC vem fazendo o trabalho direito”, afirma o ex-diretor de Política Monetária do Banco Central Luiz Fernando Figueiredo. Atualmente sócio da gestora de recursos Mauá Capital, ele acredita que o ponto central para o mercado é o fato de que a queda na popularidade do presidente Lula há pouco mais de um ano do processo eleitoral que escolherá o sucessor aumenta o receio de que o governo acelere gastos públicos para tentar reverter o momento político ruim.

Apesar de a projeção de inflação subir um pouco a cada semana, de acordo com a pesquisa Focus realizada pelo BC, ele diz que outro indicador, a taxa de inflação implícita nos contratos de juros entre os bancos está se estabilizando, mas num patamar elevado. “Isso reflete a enorme desconfiança sobre o que vem pela frente.

Segundo um ex-integrante da equipe econômica e diretor de uma grande gestora de recursos, “a desancoragem" de expectativas em relação à inflação futura vem desde o início da gestão Lula-3, quando, nas primeiras entrevistas, o presidente disse que inflação no Brasil tinha que ter uma meta "mais alta”. Por essa avaliação, desde então o mercado passou a projetar que a inflação oficial estaria mais para o teto do que para o centro da meta.

“A nova equipe sinalizou que está comprometida com a meta, mas até conquistarem essa credibilidade, vão pagar um preço”, diz esse ex-integrante do governo. Pesquisa Focus divulgada nesta segunda-feira, 24, aponta que os analistas de mais de 100 instituições consultadas aumentaram de 4,35% para 4,4% a projeção do IPCA para 2026. Para 2027, a projeção ficou estável em 4%. Para este ano, a alta esperada nos preços é de 5,65% ante 5,60% na semana anterior.

IPCA-15 sobe em fevereiro
E não são apenas as expectativas que estão maiores, o inflação que as pessoas enfrentam no dia a dia também está em alta. O IPCA-15, índice calculado pelo IBGE e que funciona como uma prévia do indicador mensal, registrou elevação de 1,23% dos preços. O dado divulgado nesta terça-feira, 25, mostra que além dos alimentos, a alta de 16,33% da energia elétrica residencial e de 0,52% nas taxas de água e esgoto, fizeram o grupo "habitação" subir 4,34% no período, com peso de 0,63 ponto percentual no índice final. Além disso, o grupo "educação" também registrou um crescimento expressivo no período de 4,78%, com peso de 0,29 ponto percentual no IPCA-15.

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