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Estados Unidos dão ‘tiro no pé’ e aproximam o mundo da Ásia, diz ex-BNDES

José Pio Borges, que comandou o banco de desenvolvimento no governo FHC, afirma que o governo Trump tenta forçar a reindustrialização do país, mas corre o risco de afastar parceiros tradicionais. Sobre a economia brasileira, ele avalia que os juros altos praticados pelo Banco Central são empecilhos para o crescimento

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O Brasil não deve esperar que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenha apreço pela relação comercial construída entre os dois países até agora. Para José Pio Borges, presidente do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), Trump e seu time de conselheiros usam o protecionismo para tentar forçar a reindustrialização interna. Na última vez que um governo republicano fez isso, lembra Borges em entrevista ao PlatôBR, jogou a economia na recessão da década de 1930. Por isso, ele avalia que os Estados Unidos estão dando um "tiro no pé" e, à medida que hostiliza seus parceiros comerciais tradicionais, estão fazendo o mundo se aproximar mais de toda a Ásia - não só da China.

Engenheiro mecânico de formação, Borges presidiu o BNDES no governo de Fernando Henrique Cardoso, entre 1998 e 2000. Tem larga experiência no setor financeiro e atuou na privatização de grandes empresas, como a Usiminas e a Copesul. À frente do Cebri, um think tank que promove debates sobre a inserção internacional brasileira, ele acompanha com atenção os efeitos da gestão Trump. Entende que o Brasil deve fazer o dever de casa e acelerar a produtividade da indústria nacional. Na sua opinião, as importações da China são um problema maior do que a taxação do aço e do alumínio pelos Estados Unidos. "Qualquer medida protecionista ou de restrição de importação tem que ser feita com muito cuidado e diplomacia para não prejudicar esse crescimento potencial de exportações, que todo ano tem ocorrido com a Ásia", aconselha.

As observações do ex-presidente do BNDES sobre as mudanças no comércio internacional são oportunas e estão sintonizadas com os movimentos do Brasil: nos próximos dias, o presidente Lula viaja para dois países asiáticos, Japão e Vietnã, e pode voltar à China ainda este ano. Para Borges, o Brasil tem dois impeditivos para voltar a crescer de forma sustentável: a taxa de juros elevada e a falta de direcionamento estratégico para os investimentos públicos. Com visão divergente de boa parte dos economistas do mercado, ele critica a atuação do Banco Central, que, em sua opinião, está combatendo uma inflação que não está sendo gerada por excesso de consumo interno, mas importada de fora, caso do petróleo e do ovo.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

O governo e a diplomacia brasileira estão conduzindo a reação às medidas dos Estados Unidos da melhor forma? Para parte do setor produtivo, há lentidão.
Quanto Donald Trump inicia conflito com seus parceiros mais próximos (Canadá, México, União Europeia) e, também, com a China, é melhor você ficar esquecido. Temos um histórico de relação comercial com os Estados Unidos, que continuam sendo um investidor importante. Mas, como parceiro comercial, hoje, a China representa duas vezes e meia o comércio com os Estados Unidos. A região onde o comércio do Brasil mais cresce é a Ásia. O Brasil comercializa mais com Vietnã do que com a Itália, mais com as Filipinas do que com que com a França. Trump, em vez de reativar relações, está buscando se isolar através de tarifas de nível elevadíssimo. Canadá, México e a China são os três maiores déficits dos Estados Unidos e os maiores alvos. Com o Brasil, ao contrário, há superávit e fomos afetados com taxa sobre alumínio e aço. Mas, por enquanto, estamos ainda num segundo time. É um novo mundo, que não caminha mais para uma integração, mas para uma separação em função de protecionismo de parte a parte. Vamos ver o que vai sobrar das ameaças de Trump. O que está por trás é um objetivo de reindustrialização dos Estados Unidos. Ele disse que indústrias farmacêuticas foram para a Irlanda por razões fiscais e que isso não teria acontecido se fosse o presidente, porque teria imposto tarifa de 200% e as indústrias farmacêuticas não teriam deixado os Estados Unidos.

Mas se as indústrias saíram porque estava mais caro produzir nos Estados Unidos, por que elas voltarão na marra?
Se será possível reverter isso, sou muito cético. A última iniciativa no sentido de que, com protecionismo, reverteriam a desindustrialização dos Estados Unidos, foi de um governo republicano, um pouco antes da última depressão de 1932. Os Estados Unidos tentaram impor tarifas e deu no que deu: na grande recessão dos anos 30. Daí o medo que o mercado tem demonstrado. Só nas últimas semanas, o mercado de ações caiu mais de 10%. O mercado vê a possiblidade de uma recessão e da retomada da inflação. É o custo imposto pelas tarifas.

Diante disso, esse comportamento dos Estados Unidos provoca uma “desglobalização” do mundo?
De certa forma, sim. Hoje, a Europa vê que não pode depender militarmente e nem comercialmente dos Estados Unidos. Europa vai ter que se voltar mais para Ásia. E não só China, mas outros países que têm população maior do que a europeia e que estão crescendo o dobro dos países do G7. Os BRICs crescem o dobro da taxa do G7 e têm uma população de a 4, a 5 vezes maior do que os países do G7. Minha impressão é que os Estados Unidos, involuntariamente, através dessa política, estão levando o mundo a se aproximar mais da Ásia como um todo, não apenas da China.

A política externa de Trump é um tiro no pé?
É um tiro no pé. É a intenção dele (de se contrapor à China), mas o que ele está fazendo, na medida que hostiliza os parceiros, é o Canadá se perguntar se foi certo concentrar 70% do comércio só com os Estados Unidos ou se deveria ter diversificado mais. O caso do Brasil é o oposto do Canadá. Sempre tivemos o nosso comércio dividido em três grandes blocos: Estados Unidos, União Europeia e Mercosul. De repente, com a emergência da China e de outros países da Ásia, hoje, 50% do comércio brasileiro são com países fora desses três blocos tradicionais. O comércio brasileiro é mais diversificado. O Brasil comercializa mais com a Ásia do que com a Europa. Evidentemente que uma sobretaxa no alumínio e no aço vai fazer indústria siderúrgica brasileira sofrer porque tem uma exportação importante para os Estados Unidos. Mas nosso comércio hoje com os Estados Unidos é 15% ou até menos do total. Já foi o dobro em termos percentuais. Hoje, estamos menos sensíveis a essas medidas do governo Trump do que já fomos no passado.

O setor siderúrgico diz que a China é um problema maior do que os Estados Unidos.
Exatamente. A supercapacidade chinesa é gigantesca. Os Estados Unidos exportam mais para o Brasil do que o Brasil para lá. A nossa capacidade de retaliação é relevante. Acho que, corretamente, o Brasil não está atacando antes de ser atacado. Devem (a diplomacia brasileira) estar considerando isso.

Há pressão forte do setor siderúrgico para adotar medidas contra importações da China, com quem o Brasil tem superávit comercial. Como encaminhar essas conversas?
Isso é complicado. A China é o maior comprador de petróleo. O Brasil já foi o maior exportador de petróleo, acima da Arábia Saudita e da Rússia, para a China, durante um período. O petróleo é o maior item da pauta de exportação do Brasil, maior do que a soja. E a China e a Índia são grandes importadores. Na área agrícola nem se fala. Nos últimos seis anos, na área de proteína animal, a China certificou dezenas de frigoríficos. A China tem olhado o Brasil com muito bons olhos. Qualquer medida protecionista ou de restrição de importação tem que ser feita com muito cuidado e diplomacia para não prejudicar esse crescimento potencial de exportações, que todo ano tem ocorrido com a Ásia. No primeiro governo Trump, o Brasil exportava para a China 60% do que os Estados Unidos exportavam. Hoje, exporta o dobro do que os Estados Unidos em produtos agrícolas. Nos beneficiamos do primeiro conflito entre China-Estados Unidos no primeiro governo Trump. Agora, é bem possível que o Brasil tenha outra onda de benefício nesses produtos onde o Brasil é extremamente competitivo. Então, é preciso muito cuidado. O setor siderúrgico é importante, mas o objetivo da indústria no Brasil é se tornar competitiva e, não, se proteger. O Brasil deveria tomar medidas para que a indústria siderúrgica se torne mais competitiva e, não, protegê-la.

E o Brasil, que entra nesse embate mundial tarifário com cenário de inflação delicado e às vésperas de eleições presidenciais?
Vamos começar pelos ovos. Nos Estados Unidos, os ovos triplicaram de preço em função de doença. O Brasil importou um pouco dessa inflação. Da mesma forma, com a guerra da Ucrânia, o petróleo subiu e o Brasil importou essa inflação que não foi causada por excesso de demanda interna, mas por efeito externo. No entanto, estamos há alguns anos com a taxa de juros real que é o dobro da segunda taxa mais alta do mundo. Uma taxa completamente absurda. E os bancos dizerem que a inflação está voltando e que temos que manter ou subir a taxa, como se os problemas de inflação, importados do exterior, fossem causados por demanda interna. Temos um grande impeditivo ao crescimento que é sermos premiados pela taxa de juros real mais alta do mundo. O segundo problema que é impeditivo do crescimento é que a taxa de investimentos nossa é muito baixa. O investimento em infraestrutura que deveria ser 3,5% do PIB, tem sido de 1% do PIB. E os gastos públicos têm sido direcionados pelas emendas do Congresso, beneficiando determinados partidos e parlamentares. Isso não é indutivo ao crescimento.

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