A senadora Eliziane Gama (PSD-MA) está na linha de frente da defesa do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga deixada no STF pelo ministro Luís Roberto Barroso. Ela atua, sobretudo, para ajudar a vencer a resistência de parlamentares evangélicos mais identificados com a direita. 

Em entrevista ao PlatôBR, Eliziane se mostrou otimista com a aprovação do nome indicado pelo presidente Lula. “Eu acho que a gente vai superar isso”, afirmou a senadora. “O Messias é uma pessoa muito cordial, tem conversado muito bem, conversou com os parlamentares, inclusive da bancada evangélica do Senado”, acrescentou.

Assim como Messias, a parlamentar é evangélica. Ela lembra que votou a favor do nome de André Mendonça, também evangélico, indicado por Jair Bolsonaro para o Supremo, e critica o uso da religião como instrumento de negociação eleitoral. “Isso é totalmente repudiado pelo Evangelho”, criticou. 

Eliziane disse que pretende novamente ajudar Lula na campanha, mas entende que desta vez não haverá necessidade de carta ao público religioso, como fez em 2022. Ela entende que Lula já fez gestos importantes aos pastores e revelou que, nos próximos dias, ele vai acatar sua sugestão e editar um decreto transformando a música gospel em patrimônio imaterial brasileiro.

Ao falar sobre a prisão de Bolsonaro, Eliziane lembrou que as acusações de golpe foram sistematizada na CPI do 8 de Janeiro, da qual foi relatora no Senado. Para ela, com as prisões, o Brasil deu uma lição de democracia para o mundo.

Confira os principais trechos da entrevista.

Como que a senhora vê esse atual embate entre a cúpula do Congresso e o governo?
A questão da relação do Congresso com o governo federal é uma relação que às vezes está às mil maravilhas, às vezes de forma mais tensa. Não acho nada tão diferente do que a gente acompanha nos últimos anos. A nossa ideia era tentar construir um acordo que pudesse reduzir a derrubada dos vetos em relação ao licenciamento ambiental, ou da devastação, como nós, ambientalistas, resolvemos chamar. A gente não conseguiu. Em relação ao tema do licenciamento, eu acho que foi muito ruim. Quando você não consegue construir um acordo, quem perde é a sociedade brasileira, quem perde é o país.

A senhora considera ser republicano o presidente do Senado querer emplacar um nome seu para o STF, contra a indicação do presidente Lula?
É bom lembrar que a indicação dos membros do Supremo Tribunal Federal é feita numa etapa pelo presidente da República e, na segunda etapa, pelo Senado Federal. Essas prerrogativas dos poderes têm que ser asseguradas, senão você acaba, na verdade, burlando essa relação. E ao invés de ser uma relação harmoniosa, acaba sendo realmente uma relação muito abusiva e isso realmente não pode ocorrer. A gente tem o direito de votar a favor ou contra. Isso aí também faz parte do Parlamento.

A senhora é evangélica, como Messias. Acredita que ele tem condição de obter o voto dos evangélicos no Senado?
Você faz uma pergunta que é muito crucial no momento que a gente vive no Brasil. A gente percebeu muito claramente, nos últimos anos, uma certa instrumentalização da fé e a utilização, às vezes, da igreja numas situações como uma moeda ou como um instrumento de negociação eleitoral. Isso é totalmente repudiado pelo Evangelho da cruz, pelo Evangelho de Cristo, pelo que a gente aprende na Bíblia Sagrada. A igreja dá uma contribuição muito grande para o Estado. Às vezes ela acaba chegando no lugar que o Estado não chega por conta de uma irmandade, de uma unidade que existe. Então essa relação tem que acontecer. Mas não se pode utilizar isso como instrumento, de repente, para fazer uma negociação político-eleitoral.

No caso da indicação do André Mendonça, naquele momento, apesar de ele ter sido indicado pelo ex-presidente Bolsonaro, de quem eu politicamente era totalmente contrária, eu votei a favor, apesar de não concordar com o fato de se dizer que ele era um “terrivelmente evangélico”. Isso não é um elemento para você integrar a Suprema Corte brasileira.

Mas Messias considera ser evangélico um trunfo na conquista de votos.
Quando se escolhe uma pessoa, você [avalia se] aquela pessoa vai contribuir para o país, vai contribuir no saber jurídico para o que é fundamental. Eu votei no André Mendonça porque eu achava que ele tinha solução do ponto de vista técnico e do ponto de vista moral também por ter uma visão do cristianismo como tem que ser, que é a unidade, que é a partilha, que é a solidariedade, que é o que diz a Constituição brasileira. A Bíblia, ao pé da letra, não é muito diferente do que diz a Constituição. É muito incoerente alguém que diz que precisa defender esses ideais cristãos e que diz que não vai votar no Messias porque, muito embora ele seja cristão, ele é uma indicação de um presidente que é do PT.

A senhora acha que ele será aprovado?
Eu acho que a gente vai superar isso. Eu acho que o Messias uma pessoa muito cordial, tem conversado muito bem, conversou com os parlamentares, inclusive da bancada evangélica do Senado Federal. Na quarta feira que vem, ele terá um jantar com os deputados da bancada evangélica e lá ele vai poder expor muito mais o que ele pensa e o conceito dele em relação a temas variados da sociedade brasileira. Eu, pessoalmente, sou otimista. 

A senhora foi uma ponte em 2022 entre a campanha de Lula com os evangélicos. Houve até aquela carta aos evangélicos. Para a campanha à reeleição, ele precisará de um novo aceno?
Eu acho que o presidente Lula é uma pessoa muito verdadeira e, na época, colocou que não precisava de carta, que ele já tinha sido presidente duas vezes e que todo mundo sabia a postura dele de nunca ter perseguindo evangélicos. Eu falei: porque existe um movimento muito grande de fake news. Ele então se convenceu e escreveu a carta. Eu acho que esse é um momento muito diferente. O presidente, de fato, mostrou que o governo dele é para todos. Na semana passada, inclusive, eu falei com ele sobre um decreto para tornar a música gospel patrimônio imaterial nacional. Durante a sanção do Imposto de Renda, ele me disse que apresentará o decreto nos próximos dias.

A senhora fez uma defesa bastante enfática da ministra Marina Silva quando ela foi atacada no Senado de forma desrespeitosa por alguns senadores. Como é hoje ser política dentro do Senado Federal e como superar essa misoginia, essa violência política contra as mulheres?
A gente tem evoluído no que se refere à ocupação de espaços de poder, mas a gente ainda está muito aquém. O Instituto Patrícia Galvão diz que a gente vai levar 100 anos para a igualdade entre homens e mulheres no Brasil. Eu tenho 20 anos de vida pública, já fui deputada estadual duas vezes, federal, já sou senadora e eu confesso a você que no Senado Federal foi onde eu tive o maior sentimento de preconceito e de ataques pelo fato de eu ser mulher. E isso quando eu ocupei posições estratégicas no Congresso Nacional, quando eu fui relatora da CPI do 8 de Janeiro. Quando eu estive presidindo comissões eu passei a sentir de forma muito clara.

Imaginem só, eu tenho 20 anos de vida pública e sou senadora e cito a Marina Silva, que tem muito mais tempo do que eu de vida pública, mas já foi ministra, já voltou a ser ministra novamente, foi senadora, ocupou vários cargos na vida pública e ela chega numa comissão e, de repente, você tem um presidente, um homem que olha para ele diz “se ponha no seu lugar”. Isso é muito revoltante. Até hoje, quando eu me lembro, me sobe uma indignação muito grande, porque o lugar que a gente quer estar é na política, é aqui com você, é em qualquer lugar. O lugar que ele queria para ela era o lugar de silêncio.

A senhora acha o Brasil já precisa encarar a questão da paridade de gênero? A campanha de 2026 tem que ter a paridade como tema?
Tem que ser. Você pega o México, você pega o Chile, você pega a Argentina, Chile, você pega a Venezuela, todos eles estão na frente do Brasil. O Brasil, infelizmente, é o segundo país aqui da América do Sul, Central e América do Norte que tem menor participação. Todos esses países têm algum mecanismo que obriga a participação, às vezes a lista fechada, às vezes a obrigatoriedade de cota, mas sempre tem um elemento coercitivo. Se você não tiver isso, você não consegue chegar lá.

Vivemos no Brasil esse momento de prisão de um ex-presidente e de generais por tentativa de golpe. Como que a senhora avalia esse momento?
Acho que o Brasil deu o recado para o mundo. Eles planejaram matar o Lula, matar o Alckmin, matar o Alexandre de Moraes. Eles criaram um clima de instabilidade no Brasil muito grave, que se não fosse a força do Congresso Nacional, leia-se Rodrigo Pacheco, que era presidente naquele momento, se não fosse a força do STF, com Alexandre de Moraes, com a Rosa Weber, com tantos outros ministros, se não fosse o pulso do presidente eleito naquele momento, Luiz Inácio Lula da Silva, não sei como estaria hoje.