Ex-embaixador da Venezuela na ONU, cargo ao qual renunciou para denunciar os desmandos do chavismo, Milos Alcalay afirmou, em entrevista à coluna, que o regime não caiu com a captura de Nicolás Maduro pelos americanos. Para ele, qualquer transição de poder só pode ser feita com a participação dos opositores do ditador, vitoriosos na eleição de 2024 e hoje presos ou exilados.
Alcalay elogiou a tradição do Itamaraty, mas criticou a ideologização dos posicionamentos dos governos Jair Bolsonaro e Lula. Professor de direito constitucional, o diplomata afirmou que o Brasil, com sua influência regional, deveria usar sua voz não só para mediar a relação da Venezuela com Donald Trump, mas para incluir a oposição, como Edmundo González e Maria Corina Machado, em um processo de transição democrática.
Abaixo, os principais trechos da entrevista:
O senhor renunciou em 2004. Esperou 21 anos para o regime cair. O regime caiu?
Não, não caiu ainda. Estamos em uma situação muito peculiar, porque, neste momento, a ação militar norte-americana tirou do jogo do xadrez o rei e a rainha, com o culto à personalidade que nós tínhamos em torno de Maduro, mas ainda há outras peças no jogo do xadrez. Delcy Rodríguez será a agente de Trump para a transição, mas ela era o braço direito de Maduro. É muito difícil que ela faça a transição. O que ela está fazendo é ganhando tempo para fazer o mesmo que fizeram tanto Maduro como Chávez: ganhar tempo para se manter no poder.
Há centenas de presos políticos pelo regime. Eles estão sendo soltos? Há essa perspectiva?
Eles estão totalmente, como se diz em português, ilhados. Eles são reféns, eles não são presos. Tem situações nas quais os familiares não sabem em que prisão estão. Não têm direitos. Quando você vê o juízo de Maduro e dessa senhora, você vê que há um juiz e que eles têm o melhor advogado. Aqui na Venezuela, os presos estão totalmente separados da possibilidade de defesa jurídica e de que seus familiares possam encontrar eles. E em condições de tortura, maus tratos, e mesmo políticos que morreram, muitos deles em prisões por falta de atenção médica ou por causa da repressão.
Qual o número de presos?
Segundo o Foro Penal, hoje há 950 pessoas presas. Há nesse grupo a elite dos dirigentes políticos, políticos regionais que venceram as eleições em 2024, manifestantes. E há cerca de 15 mil pessoas sob tutela do Estado, que têm de comparecer toda semana [à Justiça]. Você tem esse tipo de liderança que está presa, outros que estão na clandestinidade e outra parte de dirigentes no exílio para não ir à prisão. Logicamente, nessas condições, é muito difícil uma solução democrática.
Como está o povo venezuelano?
O eleitor quer uma mudança, mas é uma mudança com muita cautela, porque ele não quer entrar e engrossar as filas de um sistema repressivo, não só oficial, mas também os coletivos armados pelo mesmo governo, que tem armado bandas mafiosas. Se você não vive isso e só ouve, parece uma ficção tipo Netflix.

Houve um acordo para a queda de Maduro?
Segundo o que Trump e Delcy têm dito, aparentemente sim. Mas você não resolve o problema da Venezuela só entre os dois. É preciso incorporar na negociação os líderes que ganharam as eleições de 28 de julho de 2024, que são Maria Corina e Edmundo Gonzalez. Maria Corina está aí porque a imensa maioria de venezuelanos acredita nela, e é isso que ela precisa ter: o respaldo popular venezuelano. E não que Lula goste dela ou não, que Trump goste dela ou não.
O senhor acha que o Brasil tem que se preocupar com o governo americano? Como vê essa tensão crescente na América do Sul?
Eu sou um grande admirador da diplomacia brasileira. O Brasil, na sua tradição histórica, sempre foi um país com uma sensibilidade muito especial, na qual sempre apontava para a América Latina uma unidade na diversidade, não importa se eram liberais, conservadores, socialistas e democratas cristãos. Mas acho que o Brasil, nos últimos anos, tanto no governo de Bolsonaro como no Lula atual, foi se orientando para uma visão mais ideológica do que de Estado. Então, no caso da Venezuela, o que eu diria é que seria muito importante um Brasil que ajude a todas as partes.
Na sua opinião, o presidente Lula deveria defender a participação de Maria Corina e dos vencedores das eleições nessa transição? Esse seria um gesto diplomático importante?
Sim. Não vejo isso como impossível, ao contrário. Acho que se Lula se soma a isso que fez o presidente Macron há dois dias, seria um passo importante para a América do Sul.
O senhor acha que houve cumplicidade interna para a captura de Maduro?
Sem dúvida, sem dúvida. Eles não podem fazer uma operação assim, tipo Netflix, sem ter internamente algum apoio de gente muito comprometida com o regime de Maduro.
E essa pessoa seria a própria presidente?
Não sei. Não, não me pergunte isso. A única coisa que eu diria é que não é cômodo para a vice-presidente ser a candidata de Trump para a transição e ser a presidenta de defesa de Maduro. É uma contradição. Ou você entra na democratização, libera os presos e permite que não continuem colocando em prisão jornalistas, abre os canais de televisão, ou você continua com o regime em totalidade.
