Em um momento em que o país vive talvez uma de suas maiores crises institucionais, que o brasileiro sofre de desamparo, e o mundo enfrentam solo incerto — fustigados por crises climáticas, desorientação geopolítica e transformações tecnológicas aceleradas —, a Fundação Dom Cabral marca seus 50 anos reunindo um conjunto plural de intelectuais, acadêmicos, gestores públicos e lideranças empresariais para pensar nosso futuro. Fruto desse encontro de mentes, o livro “Imagine Brasil: Transição para a prosperidade sustentável e inclusiva” (Editora Nova Skill), organizado por Aldemir Drummond, Paulo Paiva e Viviane Barreto e que será lançado nesta sexta-feira, 11, nasce itinerário indispensável ao país.

Mais do que um diagnóstico de nossas fragilidades ou um plano engessado, a obra oferece um método. Inspirada no conceito de que as grandes transformações nascem do reconhecimento do hiato entre a performance atual e as aspirações de futuro, a publicação convida a sociedade a encurtar a distância entre o Brasil real, hoje marcado por crescimento anêmico, produtividade estagnada e perversa desigualdade, e o país democrático, próspero, justo e sustentável que queremos e podemos construir.

Para desenhar esse caminho, a obra articula uma visão sistêmica sobre os principais pilares do desenvolvimento nacional. O livro reúne propostas para a governança hídrica e a universalização do saneamento como imperativos éticos e ambientais (por Virgílio Viana, Viviane Barreto, José Carlos Carvalho, José Cláudio Junqueira Ribeiro e Luana Pretto); analisa os saltos de produtividade e os impactos da inteligência artificial no ecossistema de inovação (Carlos Primo Braga); propõe a convergência entre formação profissional e as vocações territoriais para o fortalecimento do capital humano (Ricardo Henriques e Luciana Ferreira); e aborda a necessidade de racionalizar os recursos gastos em programas de fomento econômico (Bruno Carazza). Visando à sustentação dessa arquitetura, a publicação enfrenta a urgência da modernização do Estado (Humberto Falcão Martins) e o equilíbrio orçamentário essencial à sustentabilidade fiscal (Paulo Paiva).

Emerge desse esforço a tese de que, na corrida global rumo à descarbonização da economia, a resposta reside na industrialização de nossas vantagens comparativas. Nossa expertise em energia renovável, a abundância de nossas águas, a diversidade de nossas florestas e recursos minerais devem ser ponto de partida para uma economia capaz de oferecer importantes soluções ao planeta. Devemos, na esteira da economia verde, agregar valor à produção industrial e atrair investimentos alinhados à agenda climática.

Para que seja viável, tal caminho depende do fortalecimento de alicerces inegociáveis. Apontado por Paulo Paiva e Aldemir Drummond no primeiro capítulo, um desses pilares é o capital humano. O Brasil envelhece em ritmo acelerado e, com a projeção de perda de cerca de 28 milhões de trabalhadores em idade ativa entre 2025 e 2070, o bônus demográfico que impulsionou o crescimento no século passado chegará ao fim.

Na prática, isso significa que não poderemos mais crescer pela simples adição de braços no mercado de trabalho. Será necessário que nosso sistema educacional e de formação técnica dialoguem intimamente com uma agenda alinhada com as oportunidades globais. O talento dos nossos jovens não pode ser desperdiçado na informalidade enquanto o mundo necessita de mentes preparadas e soluções criativas.

O desafio da educação também é inerente à revolução digital e à ascensão da inteligência artificial. Embora tais tecnologias ofereçam saltos expressivos em diversas áreas, trazem consigo o risco de dualizar ainda mais a economia brasileira. Sem uma formação acelerada de capital humano e governança pública intencional, abriremos um fosso entre poucas empresas de fronteira e uma maioria de pequenas empresas e trabalhadores com baixa qualificação. Direcionar a inovação para que seja um vetor de inclusão, e não de exclusão, é um dos grandes passos nessa empreitada.

No capítulo dois, Jorge Arbache e Aldemir Drummond desenvolvem a ideia de industrialização de vantagens comparativas e suas possibilidades. Nessa concepção, o Brasil tem a oportunidade de abrigar cadeias produtivas intensivas que buscam fontes abundantes de energia limpa. Trata-se de via pragmática rumo a essa economia mais verde e dinâmica, integrando estratégia, valor e tecnologia à indústria nacional.

Vivemos quadra complexa da história humana. O mundo sofre com guerras, disputa por hegemonia global entre Estados Unidos e China, o retorno do protecionismo e o que é provavelmente o maior desafio de nossos tempos: a emergência climática. Mas o Brasil já provou ser capaz de criar soluções inteligentes para grandes desafios. O contexto atual oferece ao país oportunidades talvez ainda maiores do que aquelas que aproveitamos no passado. O mundo precisa de alimentos conforme a população cresce: temos terras antropizadas disponíveis e tecnologia. O mundo precisa de metais para a transição energética: temos subsolo rico e uma das maiores reservas de terras raras. O mundo precisa de energia limpa: temos matriz renovável e a capacidade de prover produtos e serviços a partir dela.

Mas para aproveitar essa janela de oportunidades, será necessário fazer a lição de casa. Não há vento a favor de navegador, que mesmo tendo um bom barco e uma boa vela, não sabe onde está e muito menos onde quer chegar. Temos escala, conhecimento e condições excepcionais diante do tabuleiro global. Mas o caminho para um país próspero e justo não aceita atalhos mágicos. Ele exige a construção de novos consensos e profunda maturidade de lideranças públicas e privadas. Para isso, há que se imaginar um Brasil de novas possibilidades econômicas, sociais e ambientais; assim como reunir obstinado ímpeto coletivo para transformar sonhos em realidade.

Paulo Hartung é economista, presidente da Ibá (Indústria Brasileira de Árvores), membro do Conselho Consultivo do RenovaBR e ex-governador do Espírito Santo