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Janja, Trump, Ucrânia e… Seleção: o ‘pot-pourri’ de Lula na despedida da Ásia

Em entrevista, presidente defendeu a primeira-dama de críticas, falou sobre o tarifaço de Trump e seu papel na guerra da Ucrânia, disse o que pensa do futuro do time nacional de futebol do Brasil e exaltou os resultados da viagem ao Japão e ao Vietnã

Lula dá entrevista em Hanói
Ricardo Stuckert/PR

HANÓI – Viagens de Janja, chance de ligar para Donald Trump para tratar do tarifaço, guerra na Ucrânia e proximidade do presidente americano com Vladimir Putin, anistia aos acusados de tentativa de golpe, retorno de empreiteiras da Lava Jato e... Seleção brasileira. Teve de tudo na entrevista coletiva que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu pouco antes de embarcar de volta ao Brasil, ao final da viagem de quase uma semana à Ásia, onde visitou o Japão e o Vietnã.

Depois de encerrada a sessão oficial de perguntas, já prestes a sair da sala, o presidente foi indagado se prefere o português Jorge Jesus ou o italiano Carlo Ancelotti no comando da Seleção após a demissão de Dorival Júnior e a resposta surpreendeu: ele entende que o problema não está no técnico, mas na geração de jogadores e no fato de, supostamente, eles não se esforçarem suficientemente para ganhar.

Antes, porém, o presidente passeou por temas da política e da economia e voltou a defender o multilaterismo e o livre mercado, em contraposição ao protecionismo de Donald Trump. Sobre Trump, aliás, ele disse que não tem qualquer dificuldade em ligar para o colega americano, apesar das diferenças ideológicas. Em resposta ao PlatôBR, também disse que, na guerra da Ucrânia, o presidente dos Estados Unidos está certo ao tentar buscar uma solução para o conflito. Lula contou que nos próximos dias falará por telefone com Volodimir Zelensky.

Ao falar de Janja e das criticas da oposição às viagens que ela tem feito, Lula foi enfático. “Minha mulher não é clandestina. Ela não faz viagem apócrifa”, disparou, acrescentando que a primeira-dama vai continuar fazendo o que quiser – e que não liga para os ataques. “A mulher do presidente Lula não nasceu para ser dona de casa. Ela vai estar onde ela quiser, vai falar o que ela quiser e vai andar para onde ela quiser.”

Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Resultado da viagem
“Para nós, brasileiros, é importante a gente entender que a gente pode ser uma porta de entrada para o Vietnã na América Latina e para nós é importante tentar levar o Vietnã para o acordo com o Mercosul, e para nós é importante que o Vietnã seja uma porta de entrada para o Brasil na Ásia. Só por isso já valia a pena ter feito a visita. E também porque nós temos concordância com o Vietnã no multilateralismo. Nós temos concordância com o Vietnã na necessidade de melhorar a governança das Nações Unidas. Não podemos continuar apenas com os mesmos cinco países que dirigem a ONU desde 1945, e ainda com direito de veto.”

Tarifaço, reciprocidade e negociação
“Antes de fazer a briga da reciprocidade, ou de fazer a briga na OMC (Organização Mundial do Comércio), a gente quer gastar todas as palavras que estão no nosso dicionário para fazer um acordo de comércio com os Estados Unidos. Os Estados Unidos sempre foram historicamente um país importante para o Brasil. Nós temos um fluxo de comércio de 87 bilhões de dólares, eles são superavitários em 7 bilhões. Mas, então, eles também têm que pensar na responsabilidade deles. (...) É importante a gente apenas ter em conta que o presidente Trump tem o direito de fazer o que ele tiver que fazer na política americana. E nós temos que ter o direito de fazer o que nós quisermos na política brasileira, sempre levando em conta que nós somos defensores do livre comércio. (...) O Brasil vai tentar negociar ao máximo. Todas as palavras que estarão no nosso dicionário de negociação nós iremos utilizar.”

Chance de ligar para Trump
“Na hora em que eu sentir necessidade de conversar como presidente do Brasil, eu não terei nenhum problema de ligar para ele (Donald Trump). Nenhum problema. Na hora em que ele achar que tem interesse de conversar comigo, eu espero que ele não tenha nenhum problema de ligar para mim. Não é porque nós temos divergência ideológica que dois presidentes não podem conversar, até porque no exercício da presidência como chefe de Estado, a gente não coloca as nossas questões ideológicas na mesa. A gente coloca os interesses do Estado, do Estado brasileiro e do governo americano. É assim que eu vejo a política, é assim que eu vejo a nossa relação internacional, e assim que eu espero que o Estados Unidos também compreendam.”

Trump está certo ao discutir a guerra
“Na medida que o Trump toma decisão de discutir a paz entre Rússia e Ucrânia, que o (Joe) Biden deveria ter tomado, eu sou obrigado a dizer que, nesse aspecto, o Trump tá no caminho certo. Qual é o problema da Europa? É que durante quase três anos, quando a gente falava que era preciso juntar o Putin e o Zelensky, a Europa dizia: ‘Não, não. Nós temos que negociar só com o Zelensky’. Agora que o Trump começou a conversar com o Putin, a Europa não quer ficar de fora e quer que o Zelensky entre. E eu acho que tem que entrar. A conversa para ter paz é colocar Putin e Zelensky em torno de uma mesa, com quem eles convidarem para participar."

Riscos para a Europa
“Num conflito como esse, se os dois estiverem dispostos a negociar, será muito melhor para a Ucrânia, muito melhor para a Rússia, muito melhor para a Europa e muito melhor para o mundo. Porque a Europa corre o risco. Primeiro, de voltar a investir em arma para se armar. Segundo, o risco de ter que bancar a manutenção da OTAN. Terceiro, corre o risco de ter que financiar a guerra da Ucrânia. E quarto, ela corre o risco de ter que reconstruir o desastre da guerra. É muita responsabilidade para a União Europeia, que simbolizava até então um território da paz, da democracia, da concórdia. Eu aprendi na minha vida política a fazer acordos. Ia na porta de uma fábrica, xingava o patrão, xingava a segurança da fábrica e ligava pro patrão: ‘Vamos negociar?’. E a gente negociava. Essa é a minha vida. E é isso que eu faço na política.”

Projeto da anistia e conversas com cúpula do Congresso
Deixa eu te falar, você acha que eu ia querer convidar o presidente da Câmara (Hugo Motta e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, integraram a comitiva, junto com outros parlamentares) para discutir a 11 mil metros de altura problemas que posso discutir em terra, na minha casa, na casa deles, no Senado ou na Presidência da República? Não, eu fiz questão de não discutir com eles nenhum assunto do Brasil. A gente vai regressar hoje, chegaremos domingo lá em casa e a gente, então, vai sentar na segunda, terça, quarta, quinta, sexta-feira e fazer e todas as discussões que a gente tem que fazer.Tenho certeza que a anistia não é um tema principal para ninguém, a não ser para quem tá se responsabilizando. (...) Neste instante tem muita coisa importante no Congresso Nacional de interesse do povo brasileiro.”

Lava Jato e exportação de engenharia brasileira
“Nós queremos que as empresas brasileiras voltem a construir no mundo. A engenharia brasileira estava em quase toda a América Latina. A engenharia brasileira estava em todo o mundo árabe, no Oriente Médio, em quase todo o continente africano e foi destruída. Quando começou a Lava Jato, a indústria brasileira (de construção) tinha praticamente 5.000 trabalhadores em países árabes. Tudo isso acabou. Por quê? Porque o Estados Unidos querem construir, porque a Europa quer construir... Não... O Brasil tem que competir. E se depender de mim, as empresas brasileiras voltam a construir ponte, estrada, rodovia, ferrovia, hidrelétrica, no mundo afora. Esse é o papel de um país que tem uma engenharia que é competitiva em qualquer parte do mundo.

Janja e viagens
“A minha mulher não é clandestina. Ela não faz viagem apócrifa. Ela faz viagem porque ela foi convidada pra fazer uma viagem, e não foi pouca coisa. Não foi pouca coisa. Ela viajou a convite do (Emmanuel) Macron para discutir a Aliança Global Contra a Fome. (...) Eu, sinceramente, não respondo à oposição nesses assuntos. Não respondo. Acho que a Janja tem maioridade suficiente para responder aquilo que é sério. Aquilo que é molecagem, aquilo que é fake news, aquilo que é irresponsabilidade, não precisa responder. Ela vai continuar fazendo o que ela gosta. Porque a mulher do presidente Lula não nasceu para ser dona de casa. Ela vai estar onde ela quiser, vai falar o que ela quiser e vai andar para onde ela quiser. É assim que eu acho que é o papel da mulher.”

Novo técnico da Seleção
“Acho que todo brasileiro é capaz de comparar esta Seleção (atual) com as outras seleções que nós já tivemos. Eu acho que nós temos um problema: nós já não temos mais aquela exuberância e aquelas sumidades e craques que a gente teve. A gente teve Seleção com Ronaldinho, Ronaldão, Kaká, Rivaldo e Adriano, e o que nós sentimos hoje é que há uma diferença muito grande. Eu acho que o problema não é trocar de técnico. Se eu fosse técnico da Seleção, ao terminar o Campeonato Brasileiro eu convocava os melhores 22 jogadores que participaram do Campeonato Brasileiro, que estão comendo sal no país e colocava para jogar na Seleção para a gente ver no que que ia dar. Por que um time de segundo escalão na Inglaterra é mais importante que um time de primeiro escalão daqui (do Brasil)? Quantos jogadores tem no Botafogo, no Flamengo, agora o Corinthians, quem podem ir para a Seleção? (...) Técnico não faz milagre. Aliás, o Filipe Luís está fazendo no Flamengo. (...) É preciso mais esforço físico e mais esforço coletivo. Se a gente fizer isso, até eu posso ser o técnico da Seleção."

No último dia da viagem à Ásia, Lula participou em Hanói de um fórum com empresários brasileiros e vietnamitas. Ele discursou ao lado do primeiro-ministro do Vietnã, Pham Minh Chinh. Os dois anunciaram a meta de ampliar o fluxo comercial bilateral, hoje em US$ 7,7 bilhões, para US$ 15 bilhões até 2030. Um dos principais resultados da visita ao país do sudeste asiático foi a liberação da retomada das importações de carne bovina brasileira pelo governo local. Esse deve ser o ponto de partida para a guinada nos números, disse o presidente. No evento, Lula realçou que a gigante brasileira JBS vai investir US$ 100 milhões na montagem de uma planta em território vietnamita para processar a carne brasileira que será vendida não apenas ao país, mas também a outras regiões do sudeste asiático. O governo brasileiro acolheu um antigo pleito do governo do Vietnã e, na viagem, anunciou que decidiu reconhecer o país como uma economia de mercado.

Antes do encontro empresarial, Lula visitou o portentoso museu militar que o regime do Vietnã acabou de construir em Hanói para celebrar a vitória sobre a França e os Estados Unidos em conflitos que moldaram o país e resultaram no modelo de governo em vigor até hoje. Do lado de fora do museu, produto da nova fase de pujança com o crescimento econômico vietnamita, são exibidos aviões, helicópteros, tanques e mísses usados nas batalhas - e também destroços empilhados de aeronaves abatidas das tropas inimigas. Lula demonstrou curiosidade. Acompanhado dos parlamentares e ministros que levou na comitiva, ele fez perguntas aos militares fardados encarregados de apresentar as várias seções do museu. Quis saber, por exemplo, se o Vietnã chegou a entrar em conflito com a Rússia em algum momento. “Não, nós nunca tivemos problemas com a Rússia”, ouviu como resposta. Mais tarde, ao elogiar a história do Vietnã, o presidente lembrou que o país, ao longo da história, venceu países do Conselho de Segurança da ONU, um feito que, segundo ele, mostra que nem sempre é o poderio das armas que prevalece.

“Este país aqui, com exceção da Rússia, já enfrentou todos os países que fazem parte do Conselho de Segurança da ONU como membros permanentes. Este país já enfrentou a Inglaterra, já enfrentou a China, já enfrentou a França e já enfrentou os Estados Unidos. E este país ganhou de todos, numa demonstração de que, quando as pessoas estão lutando para defender o seu espaço, para defender a sua causa, não é a condição de armamento que é sua guerra, é o amor e a bravura do povo”, disse Lula.

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