Jones Manoel, comunismo e consciência popular no Brasil contemporâneo
“Um fantasma ronda a Europa – o fantasma do comunismo”. É com essa frase que Marx e Engels introduzem o texto do Manifesto Comunista, escrito em 1848. Tratava-se da ideia de que as classes dominantes, em qualquer tempo, necessitam construir imagens aterrorizantes daquilo que ameaça sua hegemonia. O comunismo, naquele momento ainda incipiente como movimento organizado, já era suficientemente potente para figurar como uma ameaça simbólica, mobilizada pelos poderes estabelecidos como justificativa para a repressão e para o controle social. O “fantasma”, nesse sentido, era uma espécie de presença latente, uma expressão da possibilidade histórica que o capitalismo não podia eliminar.
Esse fantasma também pairou sobre o Brasil. Da Primeira República às décadas de ditadura militar, o termo “comunista” serviu para designar aqueles que deveriam ser perseguidos, cassados e executados. Durante a Guerra Fria, o anticomunismo tornou-se uma política de Estado cujos efeitos se apreendiam na própria gramática cultural. Manuais escolares, novelas, jornais e discursos parlamentares reproduziam a ideia de que o comunismo significava caos e destruição da ordem moral. A sociedade brasileira foi educada a temer o comunismo antes mesmo de conhecê-lo. Essa pedagogia do medo foi uma das formas mais eficazes de neutralização política do século XX.
Talvez seja por isso que a ascensão de Jones Manoel nas redes sociais chama tanta atenção. Historiador, militante oriundo da periferia do Recife, Jones assume abertamente a identidade comunista, transformando-a em recurso de legitimação. Aqui há uma espécie de “inversão dialética”, porque o que antes funcionava como mecanismo de exclusão passa a operar como mecanismo de integração.
A sociologia política nos ajuda entender essa “virada de chave”. Com Marx e Engels, entendemos que a luta de classes é motor da história. Mas o modo como essa luta se expressa depende das formas de consciência. As classes não se movem apenas pelo acúmulo de contradições materiais, mas também pela forma como interpretam sua situação. É aqui onde entra a “ideologia”, isto é, um conjunto de representações que fazem com os indivíduos criem uma falsa consciência em torno de si mesmos e de suas condições, levando-os a pensar da forma que é mais conveniente para as classes dominantes. A ideologia organiza percepções, molda expectativas e define quem é inimigo e quem é aliado. Por décadas, o anticomunismo brasileiro funcionou como uma ideologia, exatamente porque conseguiu interditar o imaginário popular. Para grande parte da população o comunismo era sinônimo de ameaça e não de projeto emancipatório.
O que Jones Manoel faz é um tipo de repolitização da consciência popular. E suas duas as dimensões que, ao me ver, conferem maior apelo a essa repolitização, a saber, a dimensão pedagógica e a dimensão simbólica. A dimensão pedagógica consiste na capacidade de traduzir conceitos densos a partir da linguagem cotidiana, tornando-os compreensíveis para públicos mais amplos (uma tecla que tenho insistido em tocar já há um bom tempo). A simbólica, por sua vez, reside no fato de que, ao se afirmar comunista, ele consegue reabrir um campo de significados que havia sido interditado pela hegemonia anticomunista, estimulando a imaginação política da classe trabalhadora.
Quando Jones entra em arenas hostis (debates diretos contra adversários que o ridicularizam, ambientes dominados por narrativas liberais e conservadoras) ele não se limita a responder no mesmo tom da polêmica. Sua força está em recorrer aos fatos históricos, aos dados e ao senso crítico, elevando a discussão para outro nível. Como um intelectual, Jones evita o improviso fácil que caracteriza a estratégia daqueles com quem debate, e coloca em circulação argumentos apoiados em referências teóricas e evidências empíricas. Não é alguém que repercute notícias circuladas em grupos de WhatsApp, é alguém que fala da desigualdade, do racismo, da exploração e do anticolonialismo a partir das evidências e de uma tradição crítica consolidada.
Essa exposição, amplificada pelas redes, cria cortes virais que circulam fora da bolha da esquerda. E o impacto disso se traduz em números. Nos últimos 90 dias, Jones foi a figura política que mais cresceu no Instagram, com mais de um milhão de novos seguidores. Sem mandato, sem partido consolidado, sem a máquina estatal, superou inclusive Nikolas Ferreira, herdeiro digital do bolsonarismo. Esse crescimento revela que a narrativa anticomunista, embora ainda dominante, não é mais impermeável. E o que antes era automaticamente repelido começa a ser escutado, debatido e assimilado pela população, sobretudo pela juventude e pelos trabalhadores à margem do sistema político tradicional.
Em um tempo em que o neoliberalismo tenta dissolver identidades coletivas em trajetórias individuais, com seus “empreendedorismos de si” e suas “meritocracias”, o discurso comunista reaparece para nos lembrar de que não há saída individual para a exploração. A célebre conclamação que encerra o Manifesto Comunista, “Proletários de todos os países, uni-vos!”, ganha aqui nova vitalidade. Longe de ser uma fórmula retórica do século XIX, ela ressoa no presente como resposta à fragmentação produzida pelo neoliberalismo. O que Jones Manoel faz ao retomar essa tradição é atualizar o chamado à unidade. Em vez de trabalhadores isolados competindo entre si em mercados precarizados, precisamos reconstruir um sentido de pertencimento coletivo, capaz de enfrentar a exploração como problema social e histórico.
Fillipi Nascimento é cientista Social. Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Pesquisador do Núcleo de Estudos Raciais do Insper
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