A política é absolutamente necessária. Precisamos dos políticos. Mas os espaços de poder são, não raras vezes, palco para “malucos” e atraem perfis psicopáticos.

Durante uma hora, nesta quinta-feira, 4, no Brain Congress, em Porto Alegre, dois dos principais nomes da psiquiatria brasileira discutiram como a saúde mental (ou a falta dela) interfere no mundo político.

O painel tinha como tema “Como a loucura mudou a história”, e as perguntas da plateia acabaram conduzindo o debate para as personalidades de líderes como Vladimir Putin e Donald Trump. Em ano eleitoral, nomes da política brasileira foram evitados.

“Por que pessoas narcisistas, tirânicas, antissociais e psicopáticas assumem o poder? Porque não sentem remorso, não têm sentimento de culpa”, afirmou Fernando Lejderman, presidente da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul.

Pouco depois, ele concordou com uma participante que comentou que países grandes e em crise, como Estados Unidos e Brasil, atraem mais “malucos” ao poder, porque, entre outros motivos, parcela da população crê que precisa desse perfil.

“É verdade. O perfil eleito é aquele capaz de enfrentar a circunstância demandada”, respondeu.

Ao rememorar conflitos históricos e citar lideranças mundiais, José Paulo Fiks, professor da Escola Paulista de Medicina, observou que pessoas más ocupam o poder. Ele recorreu ao pensamento da filósofa Hannah Arendt, para quem o mal não é uma força demoníaca inata, mas resultado da ausência de pensamento crítico e da incapacidade de se colocar no lugar do outro.

“A maldade faz com que a pessoa não reconheça o outro como humano e, portanto, entenda que ele pode ser eliminado”, afirmou.

A polarização política tóxica corrobora essa ideia de maldade, até incentivada por quem lidera ou pretende liderar.

“É como se, para assumir o poder, fosse preciso ser um pouco mau”, chegou a dizer Lejderman, diante de parte da plateia que concordava com a cabeça.

Após o painel, em conversa com a coluna, o psiquiatra avaliou que a lógica do “nós contra eles”, presente na política brasileira, e escândalos envolvendo emendas parlamentares, por exemplo, podem revelar traços tirânicos e psicopáticos.

“O ‘nós contra eles’ é uma forma de discurso de ódio, porque significa: ‘Eu sou bom e você é ruim'”, disse.

Para Lejderman, o eleitor deveria observar melhor decisões e comportamentos dos políticos: “Quem sente mais ou menos culpa? Quem é mais ou menos frio? Quem age em benefício próprio, revelando traços narcisistas, e quem atua em prol da comunidade?”

Lejderman ponderou que “sem a política, é a barbárie” e que Brasília, por reunir os mais variados grupos da sociedade, acaba concentrando perfis muito distintos. “De perto, ninguém é normal”, brincou, lembrando Freud e Caetano Veloso.

Na avaliação do psiquiatra, mais políticos têm demonstrado interesse pelo tema da saúde mental. Aos poucos, segundo ele, cresce a percepção de que posições de liderança exigem pessoas genuinamente generosas. Com urgência.