Maduro além do ponto: as implicações da captura para a política brasileira
Como sociólogo, não como especialista em geopolítica, ousarei fazer uma leitura do episódio da captura do ditador venezuelano, Nicolás Maduro, na ofensiva militar conduzida pelo governo americano (de Trump), e de suas implicações para a política brasileira especificamente em três pontos, a saber, o tom do governo (ou o que também podemos denominar como “narrativa interna), a política externa e as eleições de 2026.
No que se refere ao primeiro ponto, é de se reconhecer que a política externa quase nunca decidiu as eleições no Brasil de forma direta, mas esse é um tópico que atua como recurso narrativo utilizado pelas campanhas. O episódio, inclusive, já tem dado à oposição subsídios para reforçar duas linhas críticas já presentes no eleitorado, que são a de que governos de esquerda estão associados a regimes autoritários e a de que boas intenções diplomáticas significam se manter cegos às violações de direitos e à corrupção que assola o governo venezuelano.
A proximidade entre Lula e Maduro pode ser redefinida rapidamente pelos adversários como um “erro de avaliação” ou uma “amizade inapropriada” com um aliado que acabou preso. Nos segmentos eleitorais mais voláteis ou antagônicos ao PT, isso amplificaria a percepção de uma estratégia equivocada. E os candidatos à presidência dificilmente se absterão de explorar essa associação negativa na campanha deste ano.
Ao mesmo tempo, setores mais à esquerda ou alinhados ao lulismo tendem a deslocar a narrativa do foco em Maduro para a crítica à maneira como os EUA conduziram a ação, transformando o episódio em uma acusação de violação do direito internacional e de retomada da lógica imperialista.
No que se refere especificamente à agenda externa, é de se destacar o esforço feito por Lula em buscar reposicionar o Brasil internacionalmente, sobretudo como mediador e protagonista diplomático regional, um papel que exige o diálogo com governos ideologicamente distintos. A captura de Maduro expõe uma certa fragilidade dessa estratégia quando confrontada com política de força de uma potência como os Estados Unidos, a despeito dos créditos colhidos no episódio das taxações e das sanções aos membros do STF, pois isso pode corroer a imagem de autonomia que o Itamaraty tentou cultivar nos últimos anos.
No eleitorado brasileiro, isso se traduz em duas leituras concorrentes. A primeira é que, para uma parte do eleitorado urbano e moderado, a ofensiva americana confirma que regimes profundamente problemáticos não são reformáveis pela diplomacia, o que enfraquece a justificativa petista por aproximação com Caracas. A segunda é que, para a outra parcela do eleitorado, especialmente dos setores que valorizam não-alinhamento e multilateralismo, a operação militar dos EUA é prova de que força e unilateralidade não resolvem crises, e que a estratégia de diálogo é defensável mesmo diante de resultados inesperados.
O saldo líquido sobre a imagem pessoal de Lula dependerá da habilidade do governo em contestar a ação americana, distanciando-se de Maduro sem parecer condescendente com a violação da soberania.
Por fim, em termos de impactos geopolíticos e eleitorais indiretos, a crise venezuelana também afeta o Brasil materialmente. Me refiro desde os fluxos migratórios e comércio de energia até a segurança fronteiriça. A instabilidade em nível regional tende a deslocar o debate público para temas que mexem com percepção de ordem e capacidade do Estado, que são fatores que, historicamente, favorecem as narrativas conservadoras em períodos eleitorais.
Soma-se a isso o fato de que, com os EUA reconfigurando sua presença na América Latina de forma assertiva, alianças regionais perdem previsibilidade, para o eleitor brasileiro, isso pode consolidar tanto a ideia de que é preciso reforçar no Brasil a autonomia estratégica, distanciando-se de hegemonias externas, quanto a ideia de que a crise é uma evidência de que lideranças fortes e alianças duras são necessárias para defender os interesses nacionais (discurso este que, com certeza, pode ser aproveitado pelos opositores para criticar a abordagem conciliatória do governo).
A captura de Maduro tem o potencial de agravar um passivo para Lula e sua coalizão. Não necessariamente decidirá a eleição, mas reforçará enquadramentos que, certamente, serão instrumentalizados pela oposição. A proximidade com Maduro já era um elemento de desgaste. Agora, em um contexto em que ele é apresentado como um prisioneiro e em processo judicial no exterior, essa proximidade pode afetar as percepções de prudência, de realismo político e de julgamento do presidente brasileiro.
Fillipi Nascimento é sociólogo. Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador do Insper.
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