A comunidade médica e científica acredita que o mundo está diante de uma revolução no tratamento do Alzheimer, segunda doença mais temida, atrás apenas do câncer.

Durante o Brain Congress, em Porto Alegre, nesta quinta-feira, 4, o pesquisador e doutor em neurociências Eduardo Zimmer previu que, provavelmente até o fim de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorize no Brasil dois exames de sangue capazes de identificar precocemente a doença.

O acúmulo da proteína beta-amiloide no cérebro, uma das principais marcas do Alzheimer, pode ser detectado até 20 anos antes do início dos sintomas, lembrou Zimmer.

“O tom é de esperança. Estamos diante de uma revolução”, afirmou.

Nos últimos meses, começaram a ser comercializados no Brasil medicamentos voltados aos primeiros sinais da doença. Com supervisão médica, orientação adequada e estímulos associados, a promessa é retardar a perda de funções cognitivas.

O neurocientista Lucas Schilling acrescentou que o avanço da ciência ajuda a vencer o estigma em torno do Alzheimer, por muito tempo tratado como “caduquice” ou senilidade, e não como uma doença biológica, que leva anos para se desenvolver.

Schilling conduz, em Porto Alegre, um centro clínico que deverá ser o primeiro do país a realizar exames de imagem capazes de detectar alterações na proteína tau, outra característica associada a estágios intermediários do Alzheimer.

No painel organizado pela farmacêutica Lilly, Ivan Okamoto, neurologista do Einstein, em São Paulo, classificou o Alzheimer como uma “doença cruel e impactante” e ressaltou os avanços científicos como uma chance de “evitar a fase ruim”.

“É uma possibilidade de abrir a fronteira de antes somente tratar os sintomas. A expectativa é parar a doença. Não temos a água da fonte da juventude, mas a proposta é conseguir devolver o envelhecimento normal. Envelhecer não é esquecer, não é perder memória”, comentou.

Capital do cérebro

O Brain Congress ocorre há 22 anos e reúne, anualmente, milhares de neurocientistas de diferentes países.

A partir deste ano, Porto Alegre virou “a capital mundial do cérebro”. Um projeto de lei de autoria do vereador Marcos Felipi (PP) incluiu no calendário oficial da cidade o maior congresso de neurociência e saúde mental da América Latina.

Pela proposta aprovada pela Câmara Municipal da capital gaúcha, o evento será, nos anos ímpares, sempre realizado em Porto Alegre, incluindo uma programação gratuita espalhada pela cidade.

Os organizadores do congresso, naturais do Rio Grande do Sul, veem a iniciativa também como uma forma de impulsionar a reconstrução do estado após as enchentes de 2024, movimentando não apenas a ciência, mas a economia local.

Participam da edição de 2026, que seguirá até o próximo sábado, 6, cerca de 7 mil pessoas. A taxa de ocupação dos hotéis ultrapassa 90%.