A revelação de mensagens trocadas por Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes, encontradas pela Polícia Federal no celular do banqueiro, adiciona um elemento novo que deveria ser decisivo sobre tornar ou não Xandão formalmente investigado no caso Master. A existência dos zaps foi revelada há pouco pela jornalista Malu Gaspar.
Até aqui, os indícios que tangenciavam o ministro do Supremo eram essencialmente relatos anônimos colhidas por investigação jornalística — da própria Malu, de David Friedlander e de Eliana Cantanhêde. Esse tipo de material, por si só, não foi considerado suficiente pela Procuradoria-Geral da República para justificar a abertura de uma investigação formal contra o magistrado. OK.
O quadro muda, porém, quando surgem registros objetivos de contato entre Vorcaro e Moraes justamente no dia em que o banqueiro tentava evitar sua prisão. A mensagem enviada às 7h19 de 17 de novembro — “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” — indica uma interlocução que, no mínimo, exige esclarecimento.
Mais significativo ainda é o fato de Moraes ter respondido imediatamente por meio de mensagens de visualização única, recurso frequentemente utilizado para evitar rastreamento ou registro permanente de conteúdo.
Xandão, que havia negado ter trocado qualquer mensagem com Vorcaro, negou que as mensagens existam e disse que tudo, mais uma vez, seria parte de uma trama para atacar o Supremo. A resposta é ruim.
O ministro sabe a quem pertence a agenda de atacar institucionalmente o Supremo, e sabe que a imprensa profissional não está nesse grupo.
O contexto em que essas mensagens foram enviadas torna o episódio ainda mais sensível. A investigação da PF indica que, naquele momento, Vorcaro já tinha conhecimento da operação que resultaria em sua prisão, informação obtida por meio do acesso ilegal a sistemas da Polícia Federal e do Ministério Público. Ou seja, tratava-se de um investigado que já vinha usando expedientes ilícitos para antecipar medidas judiciais e administrativas contra si.
Se esse mesmo investigado, no instante em que tenta evitar a execução de sua prisão, recorre diretamente a um ministro do Supremo perguntando se seria possível “bloquear” algo, a dúvida deixa de ser meramente especulativa. Passa a ser um fato material que precisa ser examinado formalmente.
Até aqui, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, sustentou que não havia elementos mínimos para abrir um procedimento envolvendo Moraes. A existência dessas mensagens, porém, deveria alterar o patamar da discussão.
De novo: não se trata mais apenas de versões ou de citações indiretas. Há registros extraídos de um celular apreendido pela PF que mostram uma comunicação direta entre o investigado central do caso e um ministro do STF em um momento crítico da investigação.
Nesse cenário, a dificuldade da PGR deixa de ser explicar por que investigar — e passa a ser justificar por que não fazê-lo. Em investigações de corrupção ou tentativa de obstrução da Justiça, a simples existência de mensagens sugerindo busca de ajuda junto a autoridades já costuma ser suficiente para a abertura de apuração preliminar.
Ignorar esse material, caso ele seja formalmente encaminhado ao Ministério Público, exigirá de Gonet uma explicação jurídica e institucional robusta.
