O horário eleitoral gratuito no rádio e na TV começa em meio a dúvidas sobre seu real impacto nestes tempos de disputas políticas travadas cada vez mais na arena da internet, pelas redes sociais, inclusive com o uso de recursos de inteligência artificial. O senso comum sugere que as velhas estratégias dos programas eleitorais não têm mais o mesmo efeito de antes. Mas especialistas desafiam essa leitura e creem que os minutos na televisão e no rádio podem fazer diferença na decisão dos eleitores, especialmente os indecisos. 

“Essa ideia de que as redes sociais passaram a ter a hegemonia da comunicação entre candidato e eleitor e que a televisão e o rádio se tornaram meios residuais não é uma verdade. A gente precisa lembrar que o acesso às redes sociais ainda é assimétrico, com pessoas mais escolarizadas, jovens e de renda mais alta acessando mais do que as pessoas do interior, por exemplo”, avalia o cientista político Jairo Nicolau, do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV.

O impacto do horário eleitoral, portanto, pode estar menos na capacidade de convencimento do eleitor e mais em apresentar candidaturas e torná-las conhecidas. Nesse cenário, que impacta tanto as candidaturas proporcionais quanto as majoritárias, os meios tradicionais de comunicação ainda funcionam como importante fonte de informação para o eleitor que não definiu seu voto, enquanto o ambiente virtual serve mais para reforçar a preferência de quem já escolheu seu candidato.

Assim, nestes tempos de disputa presidencial polarizada, por exemplo, a propaganda gratuita pode ter influência, inclusive, na faixa de eleitores da camada “nem-nem” — os que não são nem lulistas nem bolsonaristas –, que provavelmente será decisiva na escolha do próximo ocupante do Palácio do Planalto.

“Para esse contingente, que frequentemente define o resultado nos momentos finais da campanha, a transmissão aberta atua como fonte primária de informação. Desprovido de alinhamentos partidários rígidos, esse eleitor pragmático utiliza o horário gratuito para avaliar a sobriedade, a firmeza e a viabilidade das candidaturas, convertendo a familiaridade proporcionada pela TV e pelo rádio na segurança necessária para a consolidação do voto”, defende o cientista político Márcio Coimbra.

Cada segundo conta
Justamente por isso, as campanhas investem pesado na produção dos programas para veiculação na TV e no rádio — e, claro, se esforçam para fechar coligações partidárias e garantir o maior tempo possível de exposição.

À frente nas pesquisas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, também larga em vantagem na disputa pelo tempo no horário eleitoral gratuito. Ele terá 5 minutos e 31 segundos, 1 minuto e 11 segundos a mais que seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), que terá 4 minutos e 20 segundos.

A diferença é explicada pela montagem coligações. O petista uniu forças com PCdoB, PV, PDT, PSB, PSOL e Rede, enquanto o tempo do candidato do PL decorre do tamanho expressivo da bancada do partido na Câmara. Pelas regras eleitorais, 10% do tempo total é dividido igualmente entre os partidos que cumprem a cláusula de desempenho. Os outros 90% são distribuídos proporcionalmente à representação de cada legenda na Câmara.

Ronaldo Caiado (PSD) terá 2 minutos e 2 segundos e Augusto Cury (Avante), 35 segundos. Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e os demais candidatos à Presidência não terão tempo na propaganda eleitoral gratuita em rede nacional porque seus partidos não cumpriram os critérios da cláusula. de desempenho.

O TSE programou o horário eleitoral gratuito para começar nesta sexta-feira, 28. As inserções seguem por 35 dias, até 1º de outubro, às véspera do primeiro turno das eleições, marcado para o dia 4.