O curto-circuito na articulação do governo em torno do projeto de lei que reduz as penas dos condenados pela tentativa de golpe é um “episódio superado”, na avaliação de interlocutores do Palácio do Planalto. Apesar do descompasso entre o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e outros integrantes da base em torno do assunto, o senador baiano está garantido na liderança em 2026, segundo fontes palacianas. 

Ainda em dezembro de 2025, durante a sessão da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado que aprovou o PL da Dosimetria, Wagner admitiu ter feito um “acordo de procedimento” para permitir o avanço da tramitação da proposta e assumiu a responsabilidade pela articulação. A postura dele foi lida por aliados como contrária à orientação do Planalto. 

“Bom para todo mundo”
O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a falar sobre o tema. Ele negou saber do acordo que, segundo Wagner, foi feito com o objetivo de aprovar projetos de interesse econômico priorizados pelo Ministério da Fazenda. “Se houve acordo com o governo, eu não fui informado. Se não fui informado, não existe”, disse o presidente no final do ano passado.

Apesar do desacerto àquela altura, hoje a leitura predominante na articulação do governo é a de que o movimento de Wagner serviu para apaziguar as relações que andavam estremecidas entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Além disso, auxiliares do presidente reconhecem que o senador contribuiu para destravar a aprovação de propostas importantes para fechar o ano do ponto de vista fiscal. “Ficou bom para todo mundo”, avalia um interlocutor do Planalto.

“Milagre de Natal”
Nessa toada, o próprio Lula se movimentou para reabilitar Wagner diante do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) e, segundo interlocutores do presidente, o movimento rendeu frutos no último Natal. Alcolumbre, que não falava com Wagner havia cerca de um mês, desde a indicação do ministro Jorge Messias (Advocacia-Geral da União) para o STF (Supremo Tribunal Federal), ligou no dia 24 de dezembro para desejar ao líder do governo um feliz Natal, embora ambos sejam judeus.

“Curiosamente, a sinalização de aproximação ocorreu com um judeu ligando para o outro para desejar feliz Natal”, brincou um integrante do governo.

“Wagner já assumiu coisas que Lula não tinha conhecimento e ele fez isso como líder que é. O líder do governo tem que ser forte com o presidente, não precisa ser forte com mais ninguém”, diz o presidente da CCJ do Senado, o também governista Otto Alencar (PSD-BA), que presenciou o acordo costurado pelo líder do governo.

De acordo com fontes do Planalto, a confiança de Lula em Wagner, de quem o presidente é amigo pessoal há anos, segue inabalada.