Há algo de profundamente errado na política brasileira. Uma percepção silenciosa, mas cada vez mais presente na sociedade, revela um sentimento que não pode ser ignorado: nosso sistema político está poluído.

Não se trata apenas da corrupção, embora ela seja uma das manifestações mais graves dessa contaminação. O problema é mais amplo e mais profundo. Está na deterioração das relações entre poder, instituições e sociedade; na perda de referências éticas; na transformação da política, muitas vezes, em instrumento de interesses particulares.

A política nasceu para servir ao bem comum. Deveria ser o espaço privilegiado da construção de soluções, da defesa do interesse nacional e da busca de um futuro melhor. Mas, em muitos momentos, converteu-se em uma disputa permanente por poder, cargos, vantagens e sobrevivência eleitoral.

Quando o poder passa a ser um fim, e não um meio, a política perde sua razão de existir.

O cidadão vota, escolhe seus representantes e deposita neles uma parcela de sua esperança. Depois, frequentemente, assiste à formação de alianças, à mudança de posições e a negociações que pouco guardam relação com os compromissos assumidos durante a campanha.

Princípios tornam-se flexíveis. Convicções passam a depender das circunstâncias. A coerência, que deveria ser uma virtude, algumas vezes transforma-se em obstáculo.

O resultado é inevitável: a perda de confiança.

E uma democracia sem confiança é uma democracia fragilizada.

É preciso, entretanto, fazer uma distinção fundamental. O problema não é a política. A política é indispensável. Sem ela, não existe democracia; sem democracia, não existe liberdade.

O problema é a política sem princípios, sem limites e sem compromisso com o interesse coletivo.

Também não é correto dizer que todos os políticos são iguais. Há homens e mulheres que exercem a vida pública com dignidade, honestidade e espírito de serviço. O que precisa ser enfrentado é um sistema que, demasiadas vezes, recompensa o oportunismo e dificulta a trajetória daqueles que procuram preservar a coerência.

É essa lógica que precisa ser modificada.

O Brasil necessita de uma renovação institucional profunda. Uma reforma política que não seja apenas uma sucessão de mudanças casuísticas destinadas a atender interesses eleitorais imediatos, mas uma transformação capaz de fortalecer partidos, aprimorar a representação popular, reduzir privilégios e aperfeiçoar os mecanismos de controle e responsabilização.

Precisamos também aproximar o Estado do cidadão.

O Brasil real está muito distante de Brasília. É o Brasil de quem trabalha, produz, empreende, paga impostos, enfrenta filas, busca atendimento médico, luta por uma educação melhor e espera por segurança.

Enquanto esse cidadão enfrenta problemas concretos todos os dias, muitas vezes tem a sensação de que o Brasil político vive uma realidade própria, concentrado em disputas de poder que pouco respondem às suas necessidades.

Essa distância é perigosa.

Quando o cidadão deixa de se reconhecer nas instituições, a democracia começa a perder legitimidade.

Mas nenhuma reforma será suficiente se não houver uma mudança de comportamento. É preciso recuperar valores que deveriam ser elementares na vida pública: a palavra, a lealdade, a coerência e o compromisso.

Mandato não é propriedade. É responsabilidade.

Política não pode ser apenas a arte de vencer eleições. Deve ser, sobretudo, a capacidade de honrar a confiança recebida.

O adversário não é inimigo. A divergência não é traição. A crítica não é agressão. A democracia pressupõe pluralidade, contraditório e respeito.

Quando esses valores desaparecem, o debate público deixa de ser confronto de ideias e transforma-se em guerra de pessoas. E, quando a política vira guerra permanente, o país inteiro perde.

O Brasil precisa de menos personalismo e mais instituições. Menos intolerância e mais diálogo. Menos interesses particulares e mais interesse nacional.

Não precisamos de salvadores da pátria. Precisamos de instituições fortes, regras claras, responsabilidades definidas e homens públicos dispostos a respeitá-las.

A limpeza do sistema político não acontecerá por decreto. Não será produzida por uma eleição isoladamente. Será consequência de uma mudança gradual, firme e consciente nas instituições, nas regras e, principalmente, na cultura política.

É preciso devolver à política aquilo que ela perdeu em algum momento do caminho: a capacidade de inspirar esperança.

O cidadão não quer apenas votar. Quer acreditar.

Quer acreditar que seu voto produz consequências. Que as instituições funcionam. Que a lei vale para todos. Que o poder tem limites. Que o dinheiro público será tratado com respeito. Que o mandato recebido será exercido em nome da sociedade — e não de interesses pessoais.

Nosso sistema político está poluído.

Mas a política não está morta.

Ainda há tempo para recuperá-la.

E talvez o primeiro passo seja o mais difícil: reconhecer, sem medo, sem conveniência e sem hipocrisia, que o problema existe.

Porque nenhuma mudança começa enquanto continuarmos fingindo que está tudo bem.

A democracia não precisa de políticos perfeitos. Precisa de homens e mulheres que compreendam que o poder é passageiro, mas a responsabilidade pública permanece.

E é dessa consciência que poderá nascer uma nova política — mais limpa, mais responsável e, sobretudo, mais digna da confiança dos brasileiros.

Álvaro Dias é ex-senador da República e ex-governador do Paraná