Há seis meses, ninguém imaginaria que quatro dos estados nordestinos que mais deram votos proporcionais a Lula em 2022 gerariam situações tão desconfortáveis para as pretensões do presidente como agora. Candidatos com relacionamento íntimo com o presidente no Rio Grande do Norte, Bahia, Ceará e Maranhão correm sérios riscos de perder as eleições para o governo de maneira avassaladora. Uns, para candidatos mais moderados; outros, para candidatos verdadeiramente de direita — e a influência disso não aparece nas pesquisas nacionais.

Quando sai uma pesquisa para presidente a esta altura da disputa, a análise deve ser comedida, e os resultados servem mais para medir a temperatura do eleitor mais politizado do que a distribuição, em si, do que virá das urnas mais adiante. As pesquisas de 2022 estão aí para não me deixarem mentir. Em maio daquele ano, Lula aparecia com 58% das intenções, e Jair Bolsonaro, com 33%. Urnas abertas, o que vimos foi Lula com 50,9%, seu algoz com 49,1%, um Congresso majoritariamente à direita e governadores dos estados mais populosos (exceto a Bahia) nitidamente votando mais à direita.

No entanto, naquele ano, dois cenários selaram a vitória de Lula: a diferença abissal de votos para Lula no Nordeste e a pequena vantagem de Bolsonaro em relação a Lula em São Paulo. Deixei Minas Gerais de lado porque devemos ver, este ano, o mesmo que vimos em 2022.

Mas o que vemos hoje, no entanto, está muito distante do cenário de quatro anos atrás. ACM Neto lidera com certa folga na Bahia; Ciro Gomes arrisca vencer no primeiro turno no Ceará, com apoio quase integral da direita; o mesmo acontece com Eduardo Braide, no Maranhão. Já no Rio Grande do Norte, Allyson Bezerra, do União Brasil, lidera, seguido de Álvaro Dias, do PL — lá, o candidato da governadora Fátima Bezerra (PT) não chega ao segundo turno.

Quer dizer que Lula vai perder nesses estados para Flávio Bolsonaro? De forma alguma. O presidente seguirá vencendo na região, e com bastante folga, mas não terá os mesmos números de 2022. Explico: campanha deve ser sempre analisada de baixo para cima, ou seja, começa pelos candidatos a deputado estadual e vai subindo até a Presidência. Acontece que, nos palanques estaduais, quem decide os candidatos a deputado são as composições para o governo do estado.

Com candidatos fortes a esses cargos em partidos mais ao centro e à direita, fica mais difícil que as chapas assumam integralmente a dobradinha governador de um lado e Lula para presidente, do outro. Mais difícil, não impossível. Essa ainda será a tônica na região, mas essa variável garante uma diferença menor entre Lula e o principal adversário.

E, com Haddad sendo o principal nome de Lula em São Paulo, no Sudeste parece não haver muito mais o que fazer. Já nesses estados do Nordeste, o presidente vai ter de usar toda a capacidade de articulação para demover candidatos, ajustar palanques e, eventualmente, ferir os egos petistas. É decidir entre ganhar a Presidência ou desagradar aliados nos estados. Confortável não será.

Pedro Senna é publicitário, analista político e profissional de marketing eleitoral