Na última semana, o mercado corporativo global testemunhou um movimento histórico. A nomeação de Rafael Oliveira como o novo CEO global da Heineken – quebrando uma longa tradição da cervejaria holandesa ao escolher, pela primeira vez, um líder vindo de fora de seus quadros históricos – consolida uma tendência incontestável: o topo do mercado mundial de bebidas fala português.

Esse anúncio não é um fato isolado. Ele se soma à liderança de Alex Carreteiro na presidência da Heineken Américas e ao comando de Henrique Braun, que assumiu a liderança global de operações da Coca-Cola. Se olharmos para a AB InBev, a maior cervejaria do mundo, a cultura de alta performance moldada em solo brasileiro exportou talentos que ditaram o ritmo do setor por décadas, tendo hoje na liderança global o executivo Michel Doukeris.

Estamos falando de três das maiores potências de bebidas do planeta sendo conduzidas simultaneamente por brasileiros. Isso dificilmente é uma coincidência.

Há uma analogia interessante com o setor de tecnologia. Nas últimas décadas, executivos indianos passaram a liderar algumas das companhias mais influentes do mundo, como Google, Microsoft, Adobe e IBM.

Esse fenômeno não aconteceu por acaso; foi o resultado direto da combinação entre formação técnica de excelência, resiliência em mercados hipercomplexos e uma capacidade única de atuar em ambientes multiculturais.

No setor de bebidas, estamos testemunhando um movimento muito semelhante, transformando o Brasil na grande matriz global de talentos e governança do segmento.

O Brasil reúne um conjunto singular de características que funcionam como uma verdadeira incubadora de lideranças de elite. Somos um dos maiores e mais competitivos mercados consumidores do planeta, operando sob uma dimensão continental, severa diversidade regional, um ambiente tributário desafiador e cadeias logísticas altamente sofisticadas.

Quem consegue construir resultados sólidos e consistentes nessa realidade desenvolve competências raras no cenário internacional: velocidade de execução, foco obsessivo em eficiência operacional, criatividade para a resolução de problemas complexos e uma impressionante visão de longo prazo mesmo sob forte volatilidade.

Deixamos, há muito, de ser apenas um mercado consumidor gigantesco. Produzimos bebidas reconhecidas globalmente, exportamos mais de US$ 218 milhões em cerveja por ano, com crescimento de 6,9% em relação ao ano anterior, e chegando ao maior valor exportado da série histórica. Movemos uma cadeia produtiva que representa 2% do PIB e emprega 2,5 milhões de brasileiros. E agora exportamos o ativo de maior valor intangível: lideranças capazes de transformar complexidade em resultado extraordinário. O mercado global descobriu o que a indústria já sabia.

Márcio Maciel é historiador pela UnB, mestre em políticas públicas pelo IDP, presidente-executivo do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja e possui duas décadas de atuação na área de relações governamentais e institucionais