A disputa pelo governo do Distrito Federal tem uma concorrência paralela à das urnas: a do passado de cada um. Entre decisões judiciais, investigações, denúncias e episódios que voltam ao debate eleitoral, os principais nomes da corrida pela cadeira de governador passaram a carregar para a campanha assuntos de diferentes naturezas, alguns ainda em apuração, outros já tratados pela Justiça.

José Roberto Arruda (PSD), por exemplo, que tenta retornar ao governo 16 anos depois de deixar o cargo de governador e de ser preso na Operação Caixa de Pandora, teve o registro de candidatura indeferido por unanimidade pelo TRE-DF. A corte considerou que condenações por improbidade ainda produzem inelegibilidade. Arruda recorreu ao TSE e pode continuar em campanha enquanto a discussão judicial prossegue.

Apesar de não ser oficialmente candidato, Paulo Octávio, que é presidente do PSD-DF e teve o nome cogitado como alternativa para substituir Arruda, também teve o passado revisitado. Então vice de Arruda em 2010, quando eclodiu a crise, ele assumiu interinamente o governo e renunciou dias depois, alegando falta de sustentação política. Alguns dos elementos que voltaram a circular agora tratam justamente daquele período, como um levantamento publicado por veículos de imprensa segundo o qual empresas de comunicação de seu grupo receberam ao menos R$ 10,4 milhões em publicidade oficial entre 2007 e 2009, quando era vice-governador. À época, Paulo Octávio afirmou que não comandava suas empresas enquanto exercia o mandato e que a publicidade oficial seguia critérios definidos pelo governo e pela audiência dos veículos.

Paula Belmonte (PSDB), que escolheu a transparência e o combate à corrupção entre as bandeiras de sua candidatura, chega à eleição acompanhada por episódios do passado recente que envolvem seu marido, o advogado e empresário Luís Felipe Belmonte. Em um dos casos, mensagens apreendidas pela Polícia Federal levaram o STF a determinar uma apuração envolvendo suspeitas de um caixa dois de R$ 2 milhões relacionadas a uma empresa de eventos ligada a ele. A PGR pediu o arquivamento da parte da investigação que alcançava a candidata, então deputada, com o argumento de que não foram encontradas provas de envolvimento de autoridades com foro privilegiado. Luís Felipe Belmonte negou a existência de caixa dois. Em outra frente, quatro imóveis do casal foram atingidos por uma ordem de penhora decorrente de uma disputa judicial relacionada à compra de uma gráfica que alcançou R$ 253 milhões. A defesa de Paula Belmonte alegou, nesse caso, que ela não é devedora e contestou os cálculos.

Ricardo Cappelli (PSB) e Leandro Grass (PT) também carregam controvérsias já submetidas a órgãos de controle ou à Justiça Eleitoral. Em sua passagem pela presidência da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), já no governo Lula, Capelli foi alvo de representações que questionaram a utilização da estrutura de comunicação da agência para promoção pessoal. A área técnica do TCU viu indícios suficientes para justificar o prosseguimento da apuração. Cappelli negou haver vínculo entre sua comunicação pessoal e a da agência. Grass, por sua vez, chegou a ser declarado inelegível por oito anos pelo TRE-DF em 2024, por suposto abuso dos meios de comunicação na campanha de 2022. A ação contra ele foi movida pela coligação do então governador Ibaneis Rocha (MDB). Dois meses depois, o TSE reverteu a decisão por unanimidade, concluindo que as provas não permitiam afirmar que a chapa do petista tivesse divulgado informação sabidamente falsa ou gravemente descontextualizada.

Governadora e candidata à reeleição, Celina Leão (PP) também passou a enfrentar questionamentos que chegaram ao Ministério Público já durante a atual corrida eleitoral. Adversários pediram a abertura de investigação sobre R$ 1,4 milhão pagos pela Real JG Facilities, empresa detentora de contratos com o GDF, com uma firma controlada pelo marido e pela filha da governadora. Celina nega a existência de ilegalidade na relação. Em paralelo, a campanha da governadora para tentar seguir no cargo também está tendo que lidar com a crise do BRB com o Banco Master. Celina afirma que se opôs à operação desde o início.