Pelo menos 200 ingressos já haviam sido vendidos quando a palhaça carioca Rafaela Azevedo recebeu a mensagem de que a apresentação da peça “A Igreja da Fran” na Ópera de Arame de Curitiba não mais ocorreria. A produtora local alegou para Rafaela, autora e atriz da peça, que a Prefeitura de Curitiba, dona do espaço, havia considerado que o espetáculo, pelo tema tratado, feria cláusulas contratuais da concessão. “O cara da prefeitura recebeu a agenda e [entendeu que], pelo tema da peça, nós estamos ferindo a integridade do teatro”, justificou. “Eu estou sem chão. O teatro é da prefeitura”, diz o áudio recebido por Rafaela.
A atriz diz que a mensagem é de uma produtora que trabalha para a DC Set, empresa concessionária da Ópera de Arame e que estaria em busca de um novo local para a apresentação. O espetáculo estava marcado para o dia 23 de agosto. A cláusula alegada, segundo o áudio, estabelece que a apresentação não pode tratar de temas políticos ou de religião. Essa regra consta no parágrafo quinto do contrato e indica que “não será permitida a exploração de atividades ou veiculação de publicidade que infrinjam a legislação em vigor que atente conta a moral e os bons costumes, de cunho religioso ou político partidário, ou que possa prejudicar o desenvolvimento operacional e comercial dos serviços inerentes a esta concessão”.
A peça é uma crítica à manipulação da fé por pastores, padres e outros líderes religiosos que, volta em meia, são pegos em flagrantes de escândalos sexuais, financeiros. Rafaela, no papel da palhaça Fran, conta histórias da Bíblia e usa o humor para criticar passagens sobrenaturais descritas, por exemplo, em trechos sobre a criação do mundo no livro de Gênesis. “Como acreditar em uma cobra que fala?”, questiona a atriz.
“País laico”
O espetáculo também questiona o uso político das religiões. “Esse avanço do fundamentalismo religioso no Brasil é uma coisa muito séria, é um problema absurdo. Estamos cada vez mais perto de uma teocracia do que de um país laico, como prevê a nossa Constituição. Isso ocorre pelo nível de proteção das instituições religiosas”, protesta.
Por meio de nota, a Fundação Cultural de Curitiba, o órgão da prefeitura responsável pela política cultural do município, nega que tenha havido censura e afirma que não tem ingerência sobre a programação da Ópera de Arame. “Desde 2012, a Ópera de Arame é administrada por meio de concessão à iniciativa privada, e a realização do evento decorre de uma relação comercial exclusivamente privada entre os responsáveis pelo espaço e os organizadores”, informou a assessoria de imprensa da fundação. A DC Set Eventos Ltda., responsável pela gestão do teatro, argumenta que o cancelamento decorreu de uma “questão contratual” e nega que a decisão tenha qualquer relação com o conteúdo da peça.