Os juros mais altos por mais tempo, o comprometimento maior de renda das famílias, a desaceleração da oferta de crédito e a capacidade menor do governo de impulsionar a economia por meio de estímulos fiscais deve contribuir para uma desaceleração maior do PIB (Produto Interno Bruto) em 2027. Essa é a avaliação do economista-chefe do banco Pine, Cristiano Oliveira. Ele reduziu a projeção de 1,4% e para 0,8% para o ano que vem.

Quatro fatores explicam essa revisão, segundo Oliveira. O principal é a defasagem da política monetária: os efeitos do ciclo de juros elevados ainda não apareceram com força total, e o Pine avalia que esse impacto deve se manifestar de forma mais clara no próximo ano, pesando sobre consumo, investimento e emprego. A isso se somam o aumento do comprometimento de renda das famílias, a desaceleração do crédito e o impulso fiscal negativo — o setor público não deve ter capacidade de impulsionar a economia diante da restrição das contas do governo.

O resultado é uma absorção doméstica projetada em apenas 0,4% em 2027, ante 2,0% em 2026. Esse indicador considera a soma do consumo das famílias, consumo do governo e os investimentos.

O mercado de trabalho ainda segura parte do estrago. O Pine projeta desemprego médio de 5,3% em 2026 e 5,8% em 2027 — níveis historicamente baixos, o que dificulta a desinflação mais rápida dos serviços. O IPCA foi revisado para baixo: de 5,6% para 5,4% em 2026 e de 5,0% para 4,6% em 2027, com a revisão explicada pela atividade mais fraca, pelo recuo mais rápido do petróleo e por menor inércia inflacionária.

O risco El Niño
Mesmo com os cortes, a inflação segue acima da meta em todo o horizonte, pressionada pelos serviços, pelo mercado de trabalho ainda apertado e pelo risco dos efeitos do El Niño sobre os alimentos.

Esse quadro deixa pouco espaço para cortes de juros mais agressivos. A Selic permanece projetada por Oliveira em 14% no fim de 2026 e em 11,50% no fim de 2027. “Em síntese, a revisão de cenário reforça uma combinação macroeconômica desafiadora: crescimento ainda próximo do potencial em 2026, desaceleração mais pronunciada em 2027, inflação persistentemente acima da meta, juros elevados por mais tempo e riscos ainda relevantes de choques adicionais de preços”, afirmou.