O produtor brasileiro vai pagar mais caro para plantar — e ainda vai ter que torcer pelo clima. O custo de produção da próxima safra deve subir 5,5% em relação à anterior, segundo estimativa do Bradesco, divulgada nesta terça-feira, 30. A culpa é dupla: o preço dos fertilizantes que ainda não voltou ao patamar pré-conflito e defensivos puxados pela exposição a petroquímicos.
O MAP — fosfatado essencial para as lavouras de soja e milho — permanece 22% acima do nível anterior à guerra no Oriente Médio, a US$ 907,5 por tonelada, sem perspectiva de alívio no curto prazo. A ureia até recuou, mas só voltou para a faixa de US$ 445 por tonelada — o mesmo nível de antes do conflito.
O problema, segundo os analistas da instituição financeira, é que o tempo está se esgotando para fechar as compras. Com os preços elevados afastando compradores ao longo do ano, o volume de fertilizantes importados segue abaixo de anos anteriores e a janela de aquisição se fecha.
Mesmo que o conflito no Estreito de Ormuz terminasse agora, a indústria de fertilizantes levaria entre três e quatro meses para normalizar o fluxo — tempo que ainda impactaria as entregas no Brasil nesta temporada. O resultado é uma disputa mais intensa pelo produto num período mais curto, o que tende a sustentar os preços elevados e comprimir ainda mais as margens do produtor.
Além dos custos, o clima preocupa. O El Niño deve ganhar força no segundo semestre: as probabilidades chegam a 100% para o período entre agosto e outubro, segundo o relatório. Para o Brasil, o risco se concentra exatamente onde a produção mais importa — o Centro-Oeste.
Em eventos anteriores de forte magnitude, o fenômeno trouxe atraso do período chuvoso, irregularidade de precipitações e interrupção das chuvas na fase de consolidação da lavoura. O Inmet já projeta anomalia negativa de precipitação na região a partir de setembro, quando começa o plantio.
Milho e trigo
As culturas mais expostas são o milho e o trigo. Na segunda safra de milho, um El Niño forte pode reduzir a produtividade entre 20% e 30%, segundo o Bradesco, que projeta safra de 134 milhões de toneladas — ligeiramente abaixo da anterior.
No trigo, a combinação de El Niño com menores investimentos nas lavouras — pressionados justamente pelos custos elevados — pode levar a produção doméstica a ficar abaixo de 6 milhões de toneladas, o menor volume das últimas safras. O cenário cria um ciclo perverso: custo mais alto desestimula o uso de insumos, que reduz produtividade, que contrai a oferta — e sustenta preços mais elevados para quem precisa do grão.