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Os motivos da derrocada da Oi e o novo livro de seu ex-CEO Eurico Teles

Protagonista da maior recuperação judicial da história do Brasil, homologada em 2017, a Oi engrenou aquisições no seu auge, mas foi traída pelo avanço inexorável da tecnologia

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Um dos personagens centrais na maior recuperação judicial da história do país, o advogado Eurico Teles lança nesta quinta-feira, 3, na Livraria da Travessa do Leblon, no Rio de Janeiro, “Mediação na recuperação judicial no Brasil: O estudo do caso Oi”, livro que traz os bastidores da mediação da maior recuperação judicial da história do Brasil até então. A Oi, entre 2016 e 2017, lutou para aprovar o plano com dívidas avaliadas em R$ 65 bilhões -- valor superado, em 2019, pela recuperação judicial da Odebrecht, com endividamento estimado em R$ 83,6 bilhões.

Em entrevista à coluna, Teles enfatizou a importância do diálogo com os diversos credores e apontou erros que culminaram no aumento exorbitante da dívida da outrora principal concessionária de telefonia em operação no país.

Funcionário da empresa (e de suas predecessoras) por quatro décadas, incluindo seu período de estágio na Telebahia, Teles viveu como poucos o processo de transformação da companhia, que passaria a ser Telemar antes de virar Oi e adquirir a Brasil Telecom, além de ampliar sua operação por países como Angola, Países Baixos e Portugal.

Passou de estagiário a gerente até chegar ao cargo de diretor jurídico da Oi em 2007 e presidente da empresa em novembro de 2017, assumindo o desafio em meio ao início da recuperação judicial.

Teles lembrou que o plano original para recuperação da empresa tinha mais de 90.000 páginas, o que teria assustado, segundo ele, o juiz Fernando Viana. “Ele pediu ajuda para o presidente do tribunal para conferir os papéis”, diz Teles.

O advogado Eurico Teles, ex-CEO da Oi

Para ele, a explosão da dívida da empresa foi um processo que envolveu uma tempestade perfeita de fatores. “Foram várias as razões. Quando o dólar saiu da paridade de um para um e começou a surgir a valorização frente ao real, todo mundo que tinha captação de recursos internacionais aumentou sua dívida assustadoramente. Era o caso da Oi, que tinha uma empresa de captação de recursos na Holanda”, disse ele.

“Outro movimento que complicou a Oi foi comprar a Brasil Telecom. A Anatel não permitiu que se fizesse a due diligence [análise contábil da empresa]. Quando a Oi entrou dentro da Brasil Telecom se verificou que era uma empresa totalmente diferente da Telemar. Isso acresce a dívida da Oi. Depois teve o processo de aquisição da Portugal Telecom, onde descobriu um passivo de mais de 1 bilhão de euros junto ao Banco Espírito Santo”, apontou.

Embora o processo de aprovação do plano de recuperação judicial tenha sido conturbado, Teles diz que sentiu a “necessidade de divulgar esse conhecimento para muita gente”. "Nós fizemos quase 36.000 acordos de mediação. Passamos para o mercado a credibilidade de que iríamos cumprir com o plano”, disse. “É preciso que você, como líder, acredite que está fazendo o melhor e o certo em um processo de recuperação.”

Situação atual

Mesmo fora da empresa há cerca de cinco anos, Teles disse que ainda é consultado por outros empresários sobre a operação da Oi. A companhia, que entrou em recuperação judicial novamente em 2023, com dívidas avaliadas em R$ 44,3 bilhões, é vista como defasada em relação à concorrência atualmente.

“A Oi está se adaptando a uma nova realidade. Ela não é mais uma empresa de telefonia, porque ela não tem mais a parte móvel, não tem mais a parte de fibra, e não tem tecnologia para oferecer produtos, exceto a Oi Soluções, que é uma empresa voltada ao mercado corporativo. Pelo que eu vejo no mercado, a capacidade de investimento dela está reduzida, o que torna difícil disputar com Vivo, Tim e Claro, se você não tiver um lastro de investimento grande.”

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