Sempre que é confrontado com as suspeitas em relação ao áudio no qual é flagrado cobrando dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, busca, de imediato, uma comparação com o PT e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não à toa, aliados do senador entoaram o grito chamando o atual presidente de ladrão enquanto Flávio, na última sessão do Congresso, foi confrontado com as acusações. 

A tática serve para um objetivo bem específico: o de manter o chamado “núcleo duro” do eleitorado bolsonarista que se reproduz no universo religioso evangélico. Flávio busca lembrar o eleitor da missão de “evitar o mal maior” que é permitir que Lula se reeleja.

Para o deputado Otoni de Paula (PSD-RJ), pastor e ex-bolsonarista, Flávio experimentará um derretimento entre os evangélicos, mas há um grupo forte dentro da igreja que não deixará de votar no filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ) por entender que só ele é capaz de derrotar Lula. 

“Existe um núcleo duro de apoiadores de Flávio na igreja que não vai se mexer, ele não vai se alterar. É um núcleo quase que fisiológico que sempre justificará qualquer erro da família Bolsonaro. Esse núcleo tem uma completa aversão a Lula construída ao longo de anos e entende que só há uma possibilidade de vencer Lula que é ter o Flávio”, afirma o parlamentar.

Não se trata, segundo Otoni, de concordar com os erros do senador ou de não reconhecê-los. “Esse núcleo consegue entender os erros de Flávio, mas justifica por uma causa maior que é derrotar Lula”, disse o deputado.

Michelle Bolsonaro
Pesquisa Datafolha revelou um dado que corrobora o cálculo de Flávio. Mesmo com a eclosão dos áudios e as reações do bolsonarista, ele continua o político com maior potencial para vencer Lula. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) tem uma reputação melhor que a de Flávio no meio evangélico, no entanto, ela não conta com a confiança do marido para cumprir o papel de candidata. E isso pesa.

A visão de Otoni é a mesma de aliados evangélicos de Flávio, que ainda não dimensionaram o quanto o escândalo impactará a imagem do senador no meio religioso. “Não sabemos ainda o percentual de evangélicos que deixarão de votar em Flávio, mas há o temor de que Lula permaneça no poder, não só pela questão da corrupção, mas também pela questão dos costumes, pela defesa da vida contra o aborto. Para os mais pobres, a questão da segurança e do custo de vida é também muito forte”, disse o político próximo ao pré-candidato do PL.