O modelo recente de crescimento da economia brasileira, baseado no estímulo à demanda e no aumento do gasto público, dá sinais de esgotamento, afirma o diretor de Economia da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Mário Sérgio Telles, em entrevista ao PlatôBR. Segundo ele, a desaceleração do PIB (Produto Interno Bruto), o avanço do endividamento e fatores estruturais como o “Custo Brasil”, a concorrência de importados e gargalos em infraestrutura continuam prejudicando a competitividade da indústria.
Ao comentar o cenário atual em que a guerra no Oriente Médio pressiona os preços globalmente, ele destacou que os juros no país seguem excessivamente elevados, com taxa real acima de 10% ao ano, bem acima do nível neutro estimado em 5,5%, mesmo diante de sinais de desaceleração da economia. Para Mário, apesar das pressões inflacionárias recentes, ainda há espaço para redução dos juros sem comprometer o controle da inflação.
A CNI pretender dialogar com os candidatos à Presidência da República?
Apresentaremos um documento aos candidatos que traz a estrutura das principais preocupações da base industrial, e o tema central é a competitividade. Começamos analisando o ambiente macroeconômico interno e o cenário macroeconômico e geopolítico externo.
E qual é a principal preocupação nesse cenário?
Internamente, o Brasil tem crescido com base no estímulo à demanda, com forte gasto público e impulso fiscal. Isso funcionou por um tempo — crescemos cerca de 3% entre 2022 e 2024 —, mas esse modelo está se esgotando. Em 2025 o crescimento caiu para 2,3% e deve cair novamente. Sem a safra recorde da agropecuária, o crescimento teria sido ainda menor. Além disso, esse modelo aumenta o endividamento e a carga tributária, o que reduz a competitividade. Também mantém juros elevados e limita o crescimento sustentável.
Então há um desequilíbrio entre demanda e oferta?
Exatamente. O estímulo está muito concentrado na demanda, sem incentivo suficiente à oferta. Isso pressiona a inflação, exige juros mais altos e trava o crescimento.
E além do macroeconômico, quais outros pontos são abordados?
O segundo ponto é o desenvolvimento produtivo. Defendemos aperfeiçoamentos na política industrial. Também destacamos uma grande preocupação com a defesa comercial.
O que está acontecendo nessa área?
Estamos enfrentando uma forte entrada de produtos importados com práticas desleais, como subfaturamento e dumping. Nos últimos quatro anos, o volume de importações de bens de consumo cresceu 56%. Isso afeta diretamente a indústria nacional.
E outros fatores que impactam a competitividade?
Temos problemas com qualificação de mão de obra, inovação, desenvolvimento regional e o chamado “Custo Brasil”.
O que entra no Custo Brasil?
Vários fatores: financiamento caro, energia, infraestrutura, custos trabalhistas, segurança, concorrência desleal e questões ambientais. Mesmo com melhorias no macro e na política industrial, esses custos ainda reduzem a competitividade.
Vamos falar de financiamento. Quais são os principais problemas?
O principal é o custo elevado do crédito. Além da taxa básica alta, o spread bancário no Brasil também é muito alto. Isso encarece o financiamento para empresas e consumidores.
O que explica esse spread elevado?
Vários fatores: carga tributária sobre o crédito, baixa concorrência no sistema bancário, riscos elevados e problemas com garantias e fraudes. Houve avanços, mas ainda temos um mercado bastante concentrado.
E o cenário atual, com fatores externos como conflitos internacionais, afeta essa dinâmica?
Sim. A guerra no Oriente Médio impacta preços e inflação, reduzindo o espaço para queda de juros. Mas ainda vemos margem para redução, porque os juros reais estão extremamente altos — acima de 10%, quando o neutro seria cerca de 5,5%, segundo os cálculos do próprio Banco Central.
Mesmo com esse cenário, é possível continuar reduzindo os juros?
Sim, embora com menos espaço. A atividade econômica já está desacelerando, o consumo e os investimentos estão caindo. Mesmo com choques externos, o nível atual de juros é muito contracionista, então há espaço para redução sem comprometer a inflação.
Indo para a política fiscal: o que precisa ser feito?
O principal ponto é revisar o crescimento das despesas obrigatórias. Elas estão aumentando de forma insustentável.
Pode dar exemplos?
Transferências de renda, como o BPC, estão crescendo muito — tanto pelo aumento do salário mínimo quanto pelo número de beneficiários. Há indícios de concessões excessivas e possíveis fraudes, que precisam ser combatidas.
E sobre o salário mínimo?
Ele impacta vários benefícios. Precisamos rever a regra de crescimento real e talvez limitar à inflação.
E saúde e educação?
Hoje os gastos mínimos estão atrelados à receita, o que engessa o orçamento. Defendemos mais flexibilidade, inclusive com um mínimo conjunto para saúde e educação. O país está envelhecendo, então a demanda por saúde vai crescer mais que a de educação.
Há outros pontos importantes?
Sim. A rigidez orçamentária aumentou com o crescimento das emendas parlamentares obrigatórias, que muitas vezes financiam projetos pouco estruturantes. Também será necessário discutir uma nova reforma da previdência no futuro.
Isso tudo parece politicamente difícil.
Sem dúvida. Mas é necessário. Não podemos esperar uma crise fiscal para agir. Já vimos esse cenário antes, na recessão de 2014 a 2016.
Para finalizar, qual é o principal risco hoje?
O aumento do endividamento — público, empresarial e das famílias. Isso cria um cenário preocupante no médio prazo e pode levar a uma nova recessão se não houver ajustes.