Não é só a defesa do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, que desconfia da Polícia Federal como fonte dos vazamentos da informações dos inquéritos que investigam o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Também no Palácio do Planalto é essa leitura que prevalece, especialmente pelo fato de estarem vindo a público elementos de dentro da investigação, como documentos e cópias de mensagens, além de trechos de relatórios da própria corporação.

Nesta quinta-feira, 20, a revista Veja publicou documentos oficiais que mostram que investigadores responsáveis pelo caso apontam Lulinha como parte de um núcleo “de atuação permanente (…) voltado à interlocução de agentes privados perante agentes e órgãos da Administração Pública Federal”, ao lado da lobista Roberta Luchsinger, investigada no escândalo do INSS, e de Fernando Bittar, ex-sócio do primogênito do presidente da República.

As investigações apontam Lulinha como beneficiário das articulações da lobista. Em um dos casos sob apuração, ela buscou apoio dentro do governo para facilitar a venda de medicamentos à base de canabidiol para o Ministério da Saúde. Uma minuta de contrato chegou à antessala do presidente da República, ao ser enviada ao então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola — para quem a lobista comprou jóias que seriam dadas a familiares e a quem fez repasses de dinheiro.

Em pelo menos uma das mensagens obtidas durante as investigações, Roberta Luchsinger se dizia autorizada a falar em nome do presidente. Os diálogos também mostram a lobista articulando a saída de Lulinha do Brasil — em 2025, ele se mudou para a Espanha. Por intermédio de Marcola, Luchsinger também marcou um encontro com Swedenberger Barbosa, que na época era secretário-executivo do Ministério da Saúde e hoje trabalha no gabinete de Lula.

Integrantes do governo atribuem os vazamentos “a conta-gotas” a setores da PF historicamente contrários ao PT, que estariam, agora, operando para ajudar a campanha do principal adversário de Lula na corrida presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). “Quem vaza sabe exatamente o que está fazendo porque o tema cresceu no noticiário. Não se trata de acusar o Andrei Rodrigues, mas setores [da PF] que estão fazendo isso de forma clandestina”, disse sob reserva ao PlatôBR um auxiliar do presidente no Palácio do Planalto.

No mesmo movimento em que aponta o dedo para a PF, o Planalto se alinha à defesa de Lulinha para poupar o ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), cujo gabinete também tem acesso às informações que estão vindo a público. Auxiliares do presidente dizem que, embora tenha sido indicado por Jair Bolsonaro (PL) para o STF, Mendonça já deu provas de isenção na condução de investigações, como a que apura os repasses feitos a Flávio pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

As suspeitas da cúpula do governo sobre a Polícia Federal não se estendem ao diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues. Ele tem a confiança do presidente e, aliás, é apontado pela defesa de Lulinha como “vítima” dos vazamentos.

Procurada pelo PlatôBR, a PF respondeu por meio de sua assessoria de imprensa que não se manifestaria sobre as suspeitas.