TÓQUIO – Desde 2019 o imperador Naruhito não recebia um convidado para uma visita de Estado. Donald Trump, então na reta final de seu primeiro mandato na Casa Branca, foi o último. Veio então a pandemia. Quase seis anos se passaram e na ensolarada manhã desta terça-feira, 25, em Tóquio (ainda noite de segunda no Brasil), as portas do Palácio Imperial foram novamente abertas para uma ocasião do tipo, agora tendo o presidente do Brasil como homenageado.
Bem de acordo com a pontualidade japonesa, os relógios marcavam exatamente 9h20 quando uma espécie de limusine da frota do imperador, escoltada por batedores, entrou na área do palácio. O portentoso carro decorado com o selo imperial (um crisântemo amarelo estilizado) e com uma miniatura da bandeira brasileira à frente trazia Lula e a primeira-dama, Janja da Silva.
Sorridentes, Naruhito e a imperatriz Masako já se posicionavam, de pé, diante da porta de madeira do grande salão onde costumam ocorrer as cerimônias imperiais. Militares japoneses com uniformes de gala enfileirados, uma banda de metais cuidadosamente ensaiada e dezenas de crianças sacudindo bandeirolas se esparramavam pelo enorme pátio, de tamanho equivalente a três campos de futebol e rodeado por belos jardins e frondosas árvores bem aparadas.
Janja e Lula desceram do carro, cumprimentaram o casal imperial e, logo em seguida, o presidente percorreu sozinho um circuito de tapetes vermelhos espalhados pelo pátio, ao longo do qual passou em revista as tropas e o pequeno batalhão de crianças chacoalhando as bandeirinhas do Brasil e do Japão.
Se na visita à China em 2023 Lula ouviu "Novo Tempo", de Ivan Lins, na recepção japonesa a banda do imperador executou "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, e "Asa Branca", de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira – nas reuniões prévias, os assessores brasileiros haviam sugerido também "Ô Abre Alas", de Chiquinha Gonzaga, mas no fim das contas o cerimonial imperial ficou apenas com as duas primeiras.
Símbolo japonês
Sim, é verdade que hoje os poderes do imperador do Japão são limitados e que, embora ele seja o herdeiro de uma linhagem real que é a mais longeva do mundo (estima-se que tenha começado há nada menos de 2.600 anos), trata-se de um símbolo que é caro ao país – por muitos séculos, o imperador foi tratado como uma manifestação do sagrado e hoje, de maneira bem mais mundana e realista, pelos termos da Constituição, representa o Estado e a unidade do povo japonês.
Foram cerca de 40 minutos de mesuras do protocolo de Estado a céu aberto, mais 20, aproximadamente, de conversas a portas fechadas no interior do palácio, com a ajuda de intérpretes.
Jantar de gala
Horas mais tarde, Lula, Janja e o restante da comitiva brasileira voltariam ao mesmo local, de novo seguindo um protocolo rigoroso, para um banquete especial oferecido por Naruhito e Masako. A norma imperial prevê que os convidados devem ir de black-tie, mas nas negociações entre os times de cerimonial dos dois lados ficou acertada uma exceção: os assessores brasileiros explicaram que o presidente é avesso a smoking e, a pedido de Lula, o dress code masculino seria terno e gravata.
Outra alteração no protocolo envolveu o cardápio em si. Em vez do rotineiro buffet imperial, ficou combinado, também a pedido do staff do Planalto e do Itamaraty, que seriam oferecidos pratos individuais.
Chegada a hora do banquete, no grande salão acapertado, sob 32 lustres gigantes e em seis mesas meticulosamente montadas com cristais, prataria e porcelanas especiais, cada um dos mais de 100 convivas foi sendo conduzido aos seus lugares por um esquadrão de cerimonialistas e garçons metidos em fraques.
A lista de participantes incluiu, além da comitiva brasileira, representantes do governo japonês, entre eles o primeiro-ministro Shigeru Ishiba. Alguns convidados manifestavam, discretamente, alguma impaciência com as minúcias e a demora do protocolo, e até recorriam discretamente à tela do telefone celular enquanto os demais chegavam.
Havia cinco grandes mesas mais uma, perpendicular e mais extensa, onde ao centro se sentariam o casal imperial e o casal presidencial brasileiro. A distribuição dos lugares acabou criando, entre os ministros do governo brasileiro, duas classes: a principal, com a honra de ter assento à mesa onde estavam Lula, o imperador, Janja e Masako, e a outra, entre os demais.
Na mesa principal, alguns integrantes do primeiro escalão foram posicionados – caso de Camilo Santana (Educação), Silvio Costa Filho (Portos e Aeroportos) e Renan Filho (Transportes), junto com os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre. Outros ministros, como Juscelino Filho (Comunicações) e Waldez Góes (Integração Nacional), foram acomodados nas demais, onde estava também, distante, o deputado Arthur Lira, que recentemente voltou à planície do Congresso.
Ode à amizade
Naruhito e Lula fizeram rápidos discursos. O presidente citou a contribuição histórica do Japão ao Brasil em diversas áreas, da indústria automobilística à agricultura, da culinária ao jiu-jitsu. “Do Bairro da Liberdade aos haicais de Carlos Drummond de Andrade, Paulo Leminski, Érico Veríssimo e Millôr Fernandes. Dos quadros abstratos de Manabu Mabe às formas onduladas de Tomie Ohtake. Muitos brasileiros também atravessaram o mundo para viver no Japão e hoje representam uma comunidade expressiva, cuja força criativa soma-se ao espírito inovador japonês”, afirmou Lula, em discurso lido.
“Majestades, Japão e Brasil são parceiros estratégicos. Compartilhamos valores como a democracia, a paz, o multilateralismo e o desenvolvimento sustentável”, emendou, exortando o Japão a participar ativamente da COP30, programada para este ano em Belém do Pará.
Antes, o imperador, que foi ao Brasil algumas vezes até assumir o chamado “Trono do Cristântemo” e chegou a tocar com a Orquestra Sinfônica de São Paulo, também exaltou os laços entre os dois países. Lembrou que o Brasil foi o destino de sua primeira viagem oficial como príncipe herdeiro.
“Olhando para trás, o Brasil foi o primeiro país que visitei oficialmente no exterior, em 1982. E lembro-me bem que fui calorosamente recebido pelo presidente João Baptista Figueiredo e pelo povo brasileiro. Naquela ocasião, a imensidão e a diversidade de seu território, assim como a alegria de seu povo, ficaram profundamente marcadas em minha memória”, disse Naruhito.
“Agora, flores de cerejeira começaram a desabrochar em Tóquio e o Japão está se preparando para dar as boas-vindas à bela primavera. Desejo, sinceramente, que a visita de vossa excelência e da senhora (Janja) ao meu país seja frutífera e repleta de boas recordações, prosseguiu.
Resultados práticos
A visita oficial ao Japão pode até ser frutífera, como espera o imperador, mas alguns dos principais resultados práticos que podem vir dela ainda devem demorar um pouco para aparecer.
Embora haja previsão de assinatura de dezenas de acordos nas áreas pública e privada, alguns itens da agenda de negociações bilaterais – o principal é a liberação, pelo Japão, da importação de carne bovina brasileira, o que abriria para o Brasil um mercado anual de US$ 4 bilhões – podem até ser ativados por gestos políticos durante a viagem, mas vão depender de decisões impossíveis de serem tomadas no curto prazo.
No caso da carne, por exemplo, o governo brasileiro tem esperança de que em até seis meses os japoneses enviem ao país a missão para fazer inspeções técnicas que podem, enfim, destravar as importações. Nessa e em outras frentes, como as de tecnologia e serviços, o governo brasileiro tenta devolver a balança comercial entre os dois países a níveis compatíveis com o maior patamar histórico.
No ano passado, o fluxo comercial entre Brasil e Japão somou US$ 11 bilhões, mas já foi muito melhor, perto de US$ 20 bi. A ideia é que a visita, que prossegue por mais dois dias e ainda inclui um encontro empresarial, acelere negócios que possam alavancar os números atuais. Entre os que já estão previstos, há a encomenda de 20 aeronaves da Embraer por uma companhia japonesa, a All Nippon Airways, em uma operação de US$ 1,6 bilhão.