Depois de acordar aterrorizada com um bombardeio na madrugada de sábado, 3, Caracas retomou seu cotidiano em silêncio. Chama a atenção que os venezuelanos não tenham tomado as ruas para comemorar a queda de Nicolás Maduro, ditador do país por quase 13 anos. Especialista em política da América Latina, o jornalista argentino Eduardo Davis afirma que esse silêncio é puro cansaço e desconfiança.

Davis viveu em Caracas, onde tem família, por 16 anos. Assistiu à ascensão de Hugo Chávez. Foi repórter da espanhola EFE na América do Sul por 33 anos. Nos últimos três dias, de sua casa em Brasília, manteve-se em contato permanente com fontes, autoridades e cidadãos venezuelanos.

Para ele, dada a dinâmica dos fatos desde o ataque americano, é certo que houve um acordo entre o governo Trump e a presidente interina, Delcy Rodríguez. Os termos é que seguem em segredo.

“A sociedade venezuelana há muito tempo que se cansou, realmente, dos Maduro, de alguma maneira também da oposição. E agora cansou-se rapidamente do próprio Trump, que foi visto por muitos da oposição como salvador, mas agora é visto com uma certa desconfiança por essa negociação quase evidente que houve”, disse o jornalista.

Eduardo Davis avaliou que, mais que sequestrar Maduro, os EUA criaram o “sequestro de estados”, com o americano afirmando que vai administrar a Venezuela.

“Ninguém tem dúvida de que houve um acordo. Nenhuma das pessoas com quem eu conversei, e foram muitas pessoas que conhecem muito a Venezuela, com as pessoas que estão na Venezuela, jornalistas, políticos, diplomatas… Ninguém tem dúvida de que houve uma negociação, só que ninguém conhece os termos da negociação”, disse o jornalista, lembrando que o próprio Trump afirmou que seu secretário de Estado, Marco Rubio, estava em conversação com Delcy Rodríguez.

Enquanto Caracas espera para saber o desdobramento da queda de Maduro, a América do Sul fica em alerta. Donald Trump já declarou algumas vezes, desde sábado, que invadir a Colômbia para capturar o presidente Gustavo Petro seria uma boa ideia. A situação colombiana é bem diferente da Venezuela. Petro é um presidente eleito democraticamente. Em março, o país terá eleições e o presidente dificilmente fará um sucessor. A direita, por lá, está à frente.

“Essa ameaça, quando a Colômbia está entrando no processo eleitoral, parece dirigida a acrescentar uma apreensão em termos mais eleitorais do que militares”, observou Davis.

Nesse ponto, o jornalista não descarta que Trump queira se posicionar também na eleição brasileira. Para Davis, o posicionamento do Brasil sobre o ataque americano sequer pode alterar, imediatamente, o restabelecimento das relações comerciais, com a queda do tarifaço.