O presidente da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF), Edvandir Felix de Paiva, diz que a entidade saiu em defesa da própria instituição no caso envolvendo o atual diretor-geral, Andrei Rodrigues.
Para ele, o momento exige uma reflexão mais ampla sobre a PF, que passa pela falta de critérios legais mais claros para a escolha do comando.
Em entrevista à coluna, Edvandir defende uma mudança no modelo de escolha do diretor-geral e afirma que a instabilidade e as suspeitas de instrumentalização política fazem mal à Polícia Federal. “Estamos cansados de apagar o fogo. Queremos tratar a causa do incêndio”, diz.
Por que os delegados e a ADPF saíram em defesa de Andrei Rodrigues?
A ADPF saiu em defesa da instituição Polícia Federal. Não entramos no mérito da decisão. O que dissemos é que o afastamento do diretor-geral deveria ser uma decisão do plenário, para evitar a possibilidade de acontecer o que aconteceu, com várias decisões. Agora, estamos diante da expectativa sobre o que vai acontecer no julgamento da próxima semana no STF. Essa instabilidade faz muito mal à Polícia Federal.
Qual o tamanho da cicatriz que esse episódio vai deixar na corporação?
Não falo em cicatriz, mas em um problema crônico: o modelo de escolha da direção-geral. Hoje, o presidente escolhe pelo critério que considerar mais adequado. Nós defendemos que a lei estabeleça os requisitos para um diretor-geral e que os delegados escolham três nomes, que seriam enviados ao presidente para a escolha. Isso previne qualquer acusação de partidarismo, de trabalho a favor ou contra determinado governo. Protege a instituição. Queremos outro modelo. Estamos cansados de apagar o fogo. Queremos tratar a causa do incêndio.
É possível superar o debate sobre a instrumentalização da Polícia Federal?
A cultura institucional da Polícia Federal é muito forte. Os governos tentam controlar, mas sempre há crise. A simples suposição de que a polícia está atuando de maneira partidária já é muito prejudicial. A PF é um órgão de Estado, e a população precisa ter confiança nela. Quando se perde a confiança na Polícia Federal, o cenário e as perspectivas são muito ruins. O diretor-geral precisa ter liberdade para montar sua equipe sem passar os nomes pela aprovação da Presidência da República. Hoje, diretores e superintendentes precisam ser aprovados pelo governo. E existem vetos. Precisamos garantir, de maneira mais firme, a autonomia investigativa, que é algo que está sempre em risco. Não sei se conseguiremos superar completamente esse problema, mas podemos diminuir bastante a especulação e as narrativas de instrumentalização da Polícia Federal.

