A debandada de deputados tucanos em São Paulo na quinta-feira, 5, foi só o capítulo mais recente de um movimento que vem se repetindo pelo país. Seis parlamentares estaduais do PSDB, além de um do Cidadania, decidiram migrar para o PSD de Gilberto Kassab, reduzindo a bancada tucana a um tamanho simbólico na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) e reforçando a presença do partido no maior colégio eleitoral do país.

O episódio ajuda a dimensionar o tamanho que o PSD ganhou nos últimos anos e a velocidade com que tem ocupado espaços deixados por partidos tradicionais. Hoje, a legenda combina capilaridade municipal, bancadas robustas no Congresso e quadros competitivos nos estados, uma estrutura que poucos concorrentes conseguem reunir ao mesmo tempo.

Os números mais recentes dão a medida desse salto. Nas eleições municipais de 2024, o PSD foi o partido que mais elegeu prefeitos no país, com 891 vitórias. Desde a posse, a conta cresceu com novas filiações. Em janeiro deste ano, Kassab afirmou que a legenda já reúne cerca de 1.300 prefeitos em exercício, crescimento de cerca de 46%. Com isso, forma a maior rede de administrações municipais do país, ampliando a influência sobre orçamentos e alianças locais.

O avanço municipal é acompanhado por uma presença consolidada em Brasília. Nas eleições de 2022, o PSD elegeu 42 deputados federais e 14 senadores. Hoje, a bancada soma 47 deputados e mantém os 14 senadores, crescimento que ampliou o poder de barganha da sigla em votações estratégicas e na formação de maiorias.

Outro movimento que chamou a atenção foi a montagem de um cardápio vasto de presidenciáveis. Kassab reuniu sob seu guarda-chuva três governadores em exercício com ambições nacionais: Ronaldo Caiado (GO), Ratinho Jr. (PR) e Eduardo Leite (RS). A leitura interna é que manter mais de um nome competitivo dá ao partido tempo e margem de manobra para decidir apenas mais adiante se lança candidatura própria ou se negocia apoio a outro projeto.

A filiação de Caiado, em especial, foi interpretada como parte desse reposicionamento. O anúncio ocorreu logo após a sinalização de que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), deve permanecer na disputa estadual, nome que Kassab vinha tratando como uma das principais apostas para o Planalto. Com isso, o PSD passou a desenhar alternativas dentro de casa e a manter mais de um caminho aberto para 2026.

Terceira via
Para a cientista política e antropóloga Isabela Kalil, professora da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), o movimento também funciona como recado político e como uma tentativa de reorganizar o cenário. “O anúncio da entrada do Caiado acontece imediatamente após a definição do Tarcísio de ficar no governo de São Paulo. O PSD tenta construir uma terceira via, que não seja nem Lula nem bolsonarismo”, afirma.

Na prática, a estratégia reforça o perfil pragmático que Kassab cultiva na política: ampliar a base municipal, fortalecer as bancadas no Congresso e manter opções abertas para o Planalto. Os ministros Carlos Fávaro (Agricultura), Alexandre Silveira (Minas e Energia) e André de Paula (Pesca) são filiados ao PSD. Ao mesmo tempo, Kassab é secretário e um dos principais aliados de Tarcísio.