Tarcísio de Freitas entrará em 2026 sem a plena certeza sobre qual será sua empreitada eleitoral e o tamanho do desafio que lhe aguarda no ano novo. O apoio do ex-chefe Jair Bolsonaro a Flávio Bolsonaro colocou o governador de São Paulo no banco de reservas da candidatura presidencial bolsonarista, de onde ele só sairá caso Flávio faça água nos primeiros meses do ano.
Tarcísio segue sendo o preferido do mercado financeiro e do Centrão para uma candidatura de direita contra Lula. Do banco de reservas, contudo, ele tem visto Flávio se esforçar em gestos para provar que sua candidatura não é um balão de ensaio.
Uma parte dos aliados de Tarcísio viu a escolha de Bolsonaro pela ótica do copo meio cheio. Com mais quatro anos no Palácio dos Bandeirantes, o governador chegaria a 2030 tendo cumprido dois mandatos em São Paulo, ganharia independência política em relação ao ex-presidente, estaria mais distante dos desgastes do golpismo bolsonarista e não enfrentaria um titã como Lula— de quebra, ainda será bastante novo para o cargo, 55 anos.
Uma outra ala do entorno do governador, formada sobretudo por líderes do Centrão, segue aconselhando-o a não retirar o time de campo. Eles apostam que a rejeição a Flávio Bolsonaro vai abatê-lo precocemente e que o pai do senador mudará de ideia ao ver que o filho não tem chances em um segundo turno contra Lula. Entre esses políticos, acredita-se que Tarcísio conseguiria vencer o petista em razão dos apoios que reúne, do mercado ao agronegócio, passando pelos partidos de centro-direita, fora a rejeição mais baixa.
Caso concorra à reeleição em São Paulo, Tarcísio é o favorito. Lidera uma ampla base de centro-direita, conta com o histórico conservadorismo do interior de São Paulo e vem de uma expressiva vitória em São Paulo na eleição municipal de 2024, quando se empenhou decisivamente na campanha de Ricardo Nunes.
Entre os adversários cogitados para a disputa do Bandeirantes em 2026 estão Fernando Haddad, que resiste e ainda deve ser convencido por Lula a concorrer, e Geraldo Alckmin, que quer se manter como vice na chapa do petista, mas talvez seja levado à disputa também pelos cálculos de Lula. Sem ser o preferido de Lula, Márcio França é o candidato já colocado da oposição.
Seja para uma disputa paulista com favoritismo ou uma corrida presidencial como azarão, Tarcísio de Freitas enfrentará pontos de desgaste que estão longe de ser novidade no estado, como a segurança pública e a força do PCC.
Depois de assassinar um delator em plena luz do dia no desembarque de um dos terminais do Aeroporto de Guarulhos, em 2024, a facção seguiu escalando o nível de ataques em 2025 e mandou fuzilar Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, em Praia Grande (SP). Segundo o Ministério Público, a morte de Ferraz Fontes foi encomendada pela alta cúpula do PCC, como forma de vingança por sua atuação contra a facção ao longo de anos.
Outro ponto de atenção ao governador é o descontentamento em São Paulo, entre a oposição e até aliados de Tarcísio, com os pedágios free flow instalados em rodovias paulistas. A tecnologia, que dispensa os pedágios tradicionais com cancela, usa sensores para calcular a tarifa por quilômetro rodado. Os críticos, que incluem prefeitos, afirmam que o sistema cria pedágios urbanos e gera multas por falta de informação sobre a cobrança. Até 2030, o governo de São Paulo estima que estejam em funcionamento 58 pórticos free flow em rodovias concedidas no estado. O tempo dirá o pedágio que a tecnologia cobrará do próprio Tarcísio.
