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Tarifaço de Trump: ainda é cedo para o Brasil cantar vitória

Clima no governo é de apreensão com as repercussão das medidas no mundo e para economia brasileira. Para interlocutores graduados, quem canta vitória agora ainda não entendeu o jogo

O presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump.
Foto: Flickr/The White House

“Quem cantar vitória agora ainda não entendeu o jogo.” A reação de um graduado interlocutor do governo à sobretaxa anunciada pelos Estados Unidos dá o tom da apreensão gerada pela chacoalhada global que representa a política protecionista de Donald Trump. Mesmo com o Brasil ficando no grupo de países que receberam as menores tarifas adicionais sobre produtos vendidos no mercado americano, a avaliação oficial é que olhar apenas para os 10% que serão aplicados ao país “é um erro”.

Com as cadeias produtivas esparramadas pelo mundo, há perdas e ganhos em diferentes frentes do comércio internacional. Por isso, técnicos da área econômica apontam que “é hora de fazer contas e entender os impactos em diferentes segmentos”.

No governo, avalia-se internamente que a diplomacia conseguiu algum avanço em meio ao caos de Donald Trump, mas há a consciência de que o jogo está apenas começando. É fato que o ponto de partida brasileiro é mais favorável do que o de outras economias, mas ainda há muita coisa para acontecer depois que os Estados Unidos deram a largada para a guerra comercial que, até agora, o meio diplomático internacional tinha esperança de que não se concretizasse.

Na próxima semana, técnicos brasileiros voltam a se reunir virtualmente com a equipe do presidente americano para mais uma rodada de conversas. O fato de os canais de diálogo estarem abertos é considerado extremamente positivo. Apesar de o presidente Lula ter voltado a falar nesta quinta-feira, 3, da possibilidade de retaliação brasileira com a adoção de tarifas em reciprocidade, internamente o melhor caminho mapeado ainda é o da negociação.

Segundo o mesmo interlocutor oficial, até agora estava claro que os entendimentos na esfera técnica não significavam muito, já que a decisão final estava na cabeça de duas pessoas: o conselheiro presidencial Peter Navarro e o próprio Donald Trump. Agora, com os fatos na mesa, acredita-se que a negociação muda de patamar porque será possível negociar a partir de bases concretas.

No mercado financeiro, analistas e economistas tentam mapear oportunidades para as exportações brasileiras e impactos positivos para o câmbio e a inflação, além das repercussões para o crescimento mundial. Relatório da consultora MB Associados destacou estimativas do Budget Lab, de Yale, que apontam que o tarifaço de Trump fará com que “o americano médio perca US$ 3,8 mil de porder de compra" e que a queda do PIB até 2026 possa chegar a "quase 1,3%". Como os Estados Unidos representam cerca de 25% do comércio internacional, uma desaceleração por lá tem repercussões em outras economias.

Nessa conta, não estão ainda movimentos que podem vir de outros grandes blocos econômicos, como a União Europeia, além de países como Canadá e China. “O melhor movimento é esperar e avaliar no detalhe”, diz um importante integrante da equipe econômica. “Entrar em disputa, agora, só vai escalar mais tarifas com mais prejuízo”, afirma.

Agro faz as contas
A CNA (Confederação Nacional da Agricultura) já começou a fazer as contas para avaliar o grau de exposição de cada produto à economia americana. Terceiro principal destino dos produtos do agronegócio brasileiro, os Estados Unidos são um mercado consolidado e, na última década, foram destino de 6,5% a 7% da pauta exportadora do setor - atrás apenas da China e da União Europeia.

O levantamento mostrou que suco de laranja, açúcar e etanol devem perder a competitividade com as tarifas anunciadas, afetando as receitas dos produtores brasileiros que, nesses casos, concorrem com produtores locais.

Ainda assim, os técnicos destacam que “é precipitado avaliar eventuais perdas ou ganhos para o Brasil, visto que a alteração tarifária afeta todos os países do mundo, inclusive grandes exportadores de produtos agropecuários”. Lembram ainda que nova tarifas podem ser impostas caso os Estados considerem que as medidas até agora não foram suficientes. Por isso, a CNA defende que retaliações “devem ser utilizadas apenas após o esgotamento dos canais diplomáticos”.

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