A defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro pode dar um tiro no pé se levar adiante o plano anunciado de pedir o impedimento do ministro Cristiano Zanin nas decisões sobre a tentativa de golpe de Estado. Na avaliação de fontes do STF, com ou sem Zanin haverá o recebimento de denúncia e a condenação dos principais acusados. No entanto, a presença do ministro no julgamento final poderia contribuir para diminuir a pena dos eventuais condenados.
Em julgamentos anteriores sobre o golpe, Zanin discordou do relator, ministro Alexandre de Moraes, na chamada dosimetria. Nessa fase do julgamento, os ministros definem a pena a ser cumprida pelos condenados. Moraes tem sugerido penas altas e Zanin costuma baixar o patamar. Em algumas situações, Zanin conseguiu convencer outros colegas a seguir seu voto.
O argumento usado pelo advogado de Jair Bolsonaro, Celso Vilardi, para afastar Zanin das decisões sobre a tentativa de golpe é que o ministro foi advogado de Lula antes de ser nomeado para o STF. Vilardi também quer o impedimento de Flávio Dino para julgar a denúncia. Alega que, antes de ir para o STF, Dino foi ministro da Justiça de Lula. Dino tem votado de forma mais alinhada com Moraes na dosimetria das penas.
Além de Moraes, Zanin e Dino, integram a Primeira Turma os ministros Luiz Fux e Cármen Lúcia. O colegiado que julga o tema tem proferido decisões unânimes pela condenação de acusados de participar da tentativa de golpe. A divergência tem sido observada no cálculo das penas.
Em setembro de 2023, o STF julgou o primeiro réu do 8 de Janeiro, Aécio Pereira, acusado de ser um dos executores das invasões às sedes dos poderes, em Brasília. Zanin concordou com Moraes e votou pela condenação, junto com a maioria dos ministros. As ações penais ainda era julgadas no plenário, com os onze ministros. A mudança para as turmas aconteceria três meses depois.
Na votação, Zanin divergiu da pena a ser aplicada. Moraes propôs 17 anos e seis meses de prisão. Zanin queria 15 anos. Moraes saiu vitorioso.
Em novembro de 2023, o jogo virou. Em julgamento de cinco réus acusados de participação nos atos do 8 de Janeiro, Zanin novamente votou pela condenação, mas sugeriu penas menores que as propostas por Moraes. Dessa vez, o voto dele saiu vencedor e os réus foram condenados a penas que variavam de 13 anos e seis meses anos a 16 anos e seis meses de prisão.