Distância da campanha presidencial, vitória no DF e rearranjo da direita colocam ex-primeira-dama diante de escolhas que passam por Alcolumbre, Moraes e 2030

A distância que Michelle Bolsonaro (PL) manteve da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) ganhou outro significado depois da eleição. A ex-primeira-dama não foi sequer à casa onde o enteado acompanhou a apuração da derrota para Lula (PT). Preferiu ficar com Celina Leão (PP), reeleita governadora do Distrito Federal, depois de concentrar boa parte de sua agenda eleitoral na própria campanha ao Senado e na de suas aliadas locais. A ausência chegou a provocar incômodo entre integrantes da campanha de Flávio, embora Michelle tenha pedido votos para ele durante a disputa. Eleita senadora pelo DF com 938.496 votos, Michelle chega ao Congresso com capital eleitoral próprio e sem ter dependido politicamente dos filhos de Jair Bolsonaro para conquistar o mandato. Três dias depois da eleição, o cenário mudou ainda mais: derrotado por Lula, Flávio desembarcou em Miami após descumprir ordem de Alexandre de Moraes para entregar os passaportes, juntando-se nos Estados Unidos a Eduardo Bolsonaro. Com dois dos filhos de Bolsonaro fora do país e Carlos Bolsonaro, também eleito senador, mas com menor inserção entre dirigentes nacionais da direita, abre-se um espaço natural para Michelle ampliar sua influência no campo bolsonarista. Isso não significa que a liderança esteja definida, mas a combinação de mandato próprio, votação expressiva e influência entre mulheres e evangélicos garante instrumentos políticos.

A questão agora é como Michelle pretende usar esse espaço. A reeleição de Lula fortaleceu a articulação de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) para permanecer na presidência do Senado. O senador já tinha apoio de Lula e busca votos até no PL. Para Michelle, a reeleição de Alcolumbre pode oferecer uma saída conveniente para uma das primeiras pressões que receberá da ala mais radical da direita: o pedido de impeachment de Alexandre de Moraes. Próximo institucionalmente do ministro, Alcolumbre não dá sinais de que pretenda transformar essa pauta em prioridade, o que reduziria a necessidade de Michelle assumir pessoalmente o confronto. Há ainda um componente particular nessa relação. Em março deste ano, Michelle procurou Moraes no STF para tratar da situação de Jair Bolsonaro e, no dia seguinte, concedeu a prisão domiciliar solicitada pela defesa do ex-presidente para uma estreante que precisará escolher as primeiras bandeiras, preservar interlocução com o centro e construir identidade própria no Senado pode ser mais útil do que assumir todas as pautas de confronto do bolsonarismo.

Esse cálculo também alcança 2030. A derrota de Flávio recolocou Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Michelle entre os nomes mencionados no debate sobre o futuro da direita para a próxima eleição presidencial. Qualquer composição entre os dois, inclusive uma eventual chapa Tarcísio-Michelle, ainda pertence ao terreno das articulações e hipóteses, quatro anos antes da eleição. Mas a lógica política existe: Lula chegará ao fim do próximo mandato aos 84 anos, e o PT ainda não apresentou um sucessor definido. Para Michelle, os próximos anos no Senado poderão servir justamente para ampliar relações para além do núcleo familiar e testar uma atuação capaz de conversar com bolsonaristas, direita tradicional e centrão.

É por isso que a eleição para a presidência do Senado interessa particularmente à senadora eleita. Com Alcolumbre, Michelle poderia preservar bandeiras conservadoras sem necessariamente ser empurrada para a linha de frente de todos os confrontos institucionais do bolsonarismo. Uma eventual vitória de um nome identificado com a ala mais dura da direita produziria a situação inversa: aumentaria a pressão para que ela se posicionasse sobre Moraes e outras pautas de enfrentamento ao STF, o que pode ser um peso contra quem tem chances de costurar uma frente ampla mais à direita e muito menos extremista.