A poucos dias do segundo turno da eleição que decidirá se será Flávio Bolsonaro ou Luiz Inácio Lula da Silva que vai ocupar o Palácio do Planalto a partir de 2027, o Brasil voltou a estar entre os países emergentes mais mencionados nas reuniões anuais do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do Banco Mundial, realizadas neste mês em Bangkok, na Tailândia.
As impressões sobre o país foram colhidas pela superintendente sênior de Pesquisa Econômica do Bradesco, Myriã Bast, que acompanhou as discussões. Segundo ela, a agenda fiscal continua sendo o principal ponto de incerteza sobre o Brasil para os investidores estrangeiros e influencia os debates sobre juros, câmbio e bolsa.
Nos painéis, o Brasil foi citado com frequência pelo potencial em energia, terras raras e commodities, ativos que podem atrair parte dos recursos que buscam alternativas ao dólar. Esse potencial, porém, depende de o país se distanciar do aumento do endividamento observado em parte do mundo desenvolvido, afirma a economista.
O tom geral dos encontros foi menos otimista do que em abril, quando a euforia com a inteligência artificial dominou as discussões, segundo Myriã. Agora, a preocupação com o endividamento público supera com folga o temor com a inflação. Mesmo assim, os participantes avaliaram que o mundo vive uma época de inflação média elevada, com choques de oferta, tensões geopolíticas e tarifárias e nenhuma perspectiva de política fiscal menos expansionista.
O resultado é um ambiente de juros estruturalmente mais altos, observa Myriã. Os participantes interpretaram a alta recente nas taxas de longo prazo, sobretudo nos Estados Unidos, como uma reprecificação para novos níveis de equilíbrio. Uma frase repetida em vários painéis resumiu o clima: “inflation is higher for longer, rates are higher forever”. Em tradução livre, a inflação fica alta por mais tempo e os juros ficam altos para sempre.
Nesse quadro, a América Latina despertou interesse por três razões: a região é grande produtora de commodities, está longe dos conflitos e oferece juros elevados. Para o Brasil, na interpretação de Myriã, o recado de Bangkok é que o espaço para atrair capital existe, mas a fatura fiscal continua sobre a mesa.

