Mesmo antes de a campanha começar, a primeira-dama Janja da Silva já se dedicava a aprender um pouco mais sobre o mundo evangélico, participando de discussões com religiosos e, segundo integrantes do PT, ouvindo mais do que falava nos encontros organizados por pastores progressistas. Dos encontros à dublagem do jingle gospel “Tapete Vermelho“, entoado por ela nos comícios de Lula, Janja se encarregou da tentativa de cativar essa parcela do eleitorado, um foco de resistência ao PT onde o bolsonarismo navega com maior facilidade. Após o resultado do primeiro turno, desfavorável ao candidato petista, a estratégia da campanha para falar com o eleitor evangélico passou a ser rediscutida a partir da leitura interna de que Janja fracassou na tentativa.
A nova estratégia já começou a ser posta em prática. Pelo menos duas lideranças evangélicas passaram a se engajar na tentativa de reverter votos para o petista: a senadora Eliziane Gama (PSD-MA) e o deputado Otoni de Paula (PSD-RJ), que perderam a eleição em seus estados, embarcaram na campanha de Lula com essa missão. Para Otoni, a estratégia de aproximação com evangélicos encabeçada por Janja gerou ainda mais resistência, em vez de votos. “A primeira-dama é uma candomblecista e tem liberdade para isso. O problema é que aproximação soou artificial. Os evangélicos pensaram que estavam sendo feito de bobos”, disse o deputado ao PlatôBR.
Otoni de Paula, que é pastor, conta que chegou a ouvir queixas de fiéis, os quais tinham a impressão de que estavam sendo feito de bobos. “É a mesma coisa que eu, como evangélico, chegar no terreiro falando axé e saudando Ogum e Oxossi”, exemplificou. “Trata-se de uma estratégia errada, que partiu de uma arrogância política. Agora tem esse caos e nós estamos tentando reverter”, acrescentou o deputado em conversa com o PlatôBR.
Tanto Otoni quanto Eliziane avaliam que, nesta nova fase da campanha, Lula precisa fazer um gesto aos evangélicos, em sua a maioria já capturados por pastores apoiadores de Flávio Bolsonaro. Para o deputado, ao invés de jingle gospel cantado por Janja, falta Lula dizer que nunca encaminhou e que nunca encaminhará um projeto de lei para o Congresso que trate da liberação do aborto, do casamento gay e da liberação das drogas, pontos centrais da desconfiança dos eleitores religiosos. Na eleição passada, Eliziane Gama foi responsável por articular uma carta de Lula aos evangélicos explicitando os mesmos objetivos.

