Nova bancada do PL perde fôlego na corrida enquanto esquerda reivindica nome do centro para evitar 'tratoraço' da direita na CLDF

A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a fuga do ex-presidenciável conservador para os Estados Unidos provocaram um efeito dominó nas articulações da direita pragmática para comandar o Legislativo. A virada do atual presidente da República deu fôlego para as bancadas progressistas reivindicarem nomes reconhecidos dentro do centro ideológico para ocupar as principais cadeiras dos parlamentos, o que inclui a CLDF (Câmara Legislativa do Distrito Federal).

Dentro da esfera nacional, Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição e ex-coordenador da campanha de Flávio, mantinha a preferência para comandar o Senado a partir de fevereiro, mas perdeu espaço para Davi Alcolumbre (União-AP), que articula votos para reeleição. O atual presidente do Congresso colecionava alta rejeição, mas conseguiu reverter o placar após o resultado do segundo turno da eleição presidencial. Desde então, o amapaense tem sido apontado como o nome mais competitivo para a disputa, especialmente da esquerda. A justificativa é de que o senador representa o campo oposto ao bolsonarismo e tem a chance de reduzir a possibilidade da extrema direita assumir o poder da caneta.

Da mesma forma, no Distrito Federal, o Partido Liberal chegou a mirar no comando institucional da Câmara Legislativa. A sigla argumentava ter formado a maior bancada da próxima legislatura e, apesar disso, o partido bolsonarista perdeu o favoritismo para Wellington Luiz (MDB). Atual presidente da Casa, o emedebista caiu na mesma régua usada por defensores de Davi Alcolumbre e tem sido incentivado a renovar a permanência na principal cadeira do Legislativo local. Assim como no Congresso, a eleição da nova Mesa Diretora da Câmara Legislativa está prevista para ocorrer em 6 de janeiro de 2027.

Na terça-feira, 27, desta semana, os deputados distritais aprovaram, por 17 votos a 6, em primeiro turno, a mudança na Lei Orgânica do DF que pode permitir a recondução de deputados para cargos da Mesa Diretora, inclusive a presidência, especialmente na passagem de uma legislatura para outra, o que favoreceria Wellington Luiz. Porém, quatro dos seis votos contrários ao projeto vieram justamente por integrantes do PL, como Thiago Manzoni (eleito deputado federal), Roosevelt Vilela, Joaquim Roriz Neto e João Cardoso.

Por outro lado, a possibilidade recebeu a adesão de deputados de diferentes alas ideológicas, inclusive do campo progressista. Segundo os apoiadores da mudança, a proposta garantiria espaço também para parlamentares de esquerda nas decisões da Casa. A bancada de oposição sustenta que o emedebista, embora não seja o preferido do campo esquerdista, deve priorizar uma boa interlocução não apenas com governistas, mas também com o campo oposto e, com isso, tende a manter o equilíbrio de forças políticas, mesmo diante da polarização nacional que é reproduzida em Brasília.

O emedebista não é o único nome dentro dessas conversas embrionárias para o comando da CLDF. Extremamente competitivo, o deputado Eduardo Pedrosa (União Brasil) reúne bons atributos para encarar a disputa. Caso o PL desista da cadeira, Eduardo poderá receber o apoio da legenda que representa o bolsonarismo. A decisão não é meramente identitária. Pedrosa tem experiência, é presidente da Comissão de Economia, Orçamento e Finanças (CEOF), tem muita habilidade nas articulações internas e nutre excelente relação com a governadora Celina Leão. Contra mais um mandato de Wellington Luiz, Eduardo Pedrosa também levantou questionamentos jurídicos sobre a possibilidade de um terceiro mandato consecutivo, caso o atual presidente da CLDF oficialize a candidatura.

De forma mais discreta, mas não menos relevante, a estreante Renata d’Aguiar (Republicanos) também aparece forte dentro dos nomes ventilados para ocupar a presidência do Legislativo do Distrito Federal. Nos corredores do Palácio do Buriti, a parlamentar de primeiro mandato aparece entre as possibilidades para o comando da Casa. A justificativa é que a futura parlamentar é aliada e amiga de longa data de Celina Leão. Pesa a favor da parlamentar eleita a boa interlocução com alas conservadoras e a vantagem de ser mulher, o que reforça a narrativa defendida pela governadora sobre o protagonismo feminino e a chance de Brasília protagonizar a representatividade de mulheres no comando de dois dos principais poderes da capital federal.

Dentro desse cenário, Wellington Luiz tem um desafio relevante. Eleito presidente da Casa desde 2023, e reconduzido até o fim da atual legislatura, o emedebista corre o risco de sofrer investidas de adversários para que não consiga permanecer na cadeira e, portanto, na linha sucessória do governo local. A votação do segundo turno sobre essas mudanças está prevista para ocorrer no dia 10 de novembro.

Por enquanto, Celina Leão não tem interesse em interferir no processo interno dos deputados distritais. A governadora reeleita está de férias no litoral alagoano e tem dito a pessoas próximas que prefere esperar a construção de um acordo antes de anunciar apoio para algum postulante que mira a principal cadeira do Legislativo local. Com isso, a titular do Palácio do Buriti dará prioridade para recarregar as baterias antes de ter que interferir em questões políticas, especialmente aquelas que podem influenciar nos próximos quatro anos.