Ao discursar na abertura da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), nesta terça-feira, 22, em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva explorou vários assuntos caros à sua campanha pela reeleição, de olho no público interno brasileiro, e mirou por diversas vezes em Donald Trump, ainda que não tenha mencionado nominalmente o presidente dos Estados Unidos. Lula repisou o tema soberania para rechaçar a ameaça de interferência política americana em países da América Latina e, especialmente, no Brasil. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, disse o petista.
No plano mais geral, Lula criticou o enfraquecimento da ONU e de sua tarefa crucial de evitar guerras, voltou a defender o multilateralismo e desfiou seus já conhecidos argumentos críticos à forma como o governo Trump enxerga o papel dos Estados Unidos no mundo. “Existe, em todo o mundo, um anseio legítimo por mudanças. Mas mudar não é retroceder. Não é subtrair direitos. Não é reeditar teorias de supremacia racial ou de submissão feminina. Não é recolonizar o Sul Global”, apontou Lula, que não perdeu a oportunidade de mencionar a ação militar americana na Venezuela que resultou na captura de Nicolás Maduro. “O povo Venezuelano merece definir o seu próprio destino”, defendeu.
O presidente fez menção direta ao declarado interesse dos Estados Unidos de ampliar a presença americana nos países latino-americanos. “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo”, disse Lula, ampliando a crítica ao propalado risco de ingerência nas eleições. “A democracia está em xeque”, afirmou.
“Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais”, disse o petista. Falando especificamente da possibilidade de interferência dos Estados Unidos nas eleições deste ano no Brasil, Lula voltou a dizer que o processo eleitoral brasileiro é absolutamente confiável antes de mencionar de forma mais direta os “inimigos da democracia internos e externos”.
“[É] um pleito no qual os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão. Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará desse caminho.” Nesse momento, o petista fez menção à família Bolsonaro, ainda que indiretamente: “Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país”. “A democracia brasileira pertence aos brasileiros”, emendou.
Para além das estocadas indiretas em Trump, o discurso teve forte apelo eleitoral, com o presidente-candidato passeando por vários temas que têm sido explorados na campanha, como o fim da jornada de trabalho 6×1 e a defesa do Pix. “Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros”, disse. Na mesma toada, ele também defendeu as ações do governo na área social: “A desigualdade e o subdesenvolvimento resultam de escolhas políticas. É possível colocar o pobre no orçamento e fazer os ricos pagarem a sua parte”, disse Lula, que foi aplaudido pela assembleia em dois momentos — ao falar da necessidade de combater o feminicídio e ao elogiar a atitude da ONU de reconhecer a escravidão como o “mais grave crime contra a humanidade”.
Além desse ponto, Lula foi aplaudido ao conclamar o mundo a se unir na defesa das mulheres. “Um país livre do feminicídio, onde nenhuma mulher, dentro ou fora de casa, viva sob a ameaça da violência. Essa é uma causa que o mundo todo precisa abraçar”, disse Lula que indicou que a ONU precisa “se debruçar sobre temas determinantes para o futuro da humanidade”. “Somos chamados a optar entre multilateralismo ou unilateralismo; democracia ou extremismo; soberania ou subordinação”, indicou.
Donald Trump falou logo depois do presidente brasileiro. Excedeu o tempo previsto de 15 minutos com um discurso repleto de autoelogios, também com forte viés eleitoral (os Estados Unidos terão eleições para o Congresso neste ano), mas sem qualquer menção ao Brasil. À diferença do que ocorreu no ano passado, desta vez os dois presidentes não se encontraram nos bastidores. Nos corredores da ONU, Trump foi perguntando se está apoiando algum candidato nas eleições brasileiras. Ele até parou, ouviu a pergunta, mas deu as costas e foi embora.

