Planalto aposta na eleição de terça para esvaziar Flávio Bolsonaro e avançar na regulação das big techs. Trump volta a classificar votação brasileira como ‘vergonhosa’
A relação entre Brasil e Estados Unidos está em compasso de espera. O motivo é a eleição legislativa norte-americana da próxima terça-feira, 3, que vai renovar todas as 435 cadeiras da Câmara e 35 das 100 do Senado. O cenário ideal para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva é uma vitória do Partido Democrata, de oposição a Donald Trump, nas duas Casas. Na avaliação do Planalto, o enfraquecimento interno do republicano traria ganhos para a política externa brasileira. O primeiro diz respeito ao tratamento dado por Washington a Flávio Bolsonaro, adversário derrotado por Lula que fugiu para Miami. O segundo envolve as pautas que o petista pretende encampar no quarto mandato para projetar sua gestão do que chama de intromissões vindas do exterior.
Uma delas é a regulação das grandes empresas de tecnologia. Para Lula, o tema ganhou nova dimensão após as suspeitas de interferência de empresas de tecnologia no processo eleitoral brasileiro. Um Congresso de maioria democrata abriria caminho, em Washington, para impor regras à atuação das chamadas big techs, bandeira que o presidente quer levar adiante no cenário internacional. Some-se a isso a questão ambiental, que pode favorecer uma aproximação forte entre os dois países.
Na leitura do governo brasileiro, a votação de terça explica o comportamento dúbio de Trump diante do resultado das urnas por aqui. Ele não reconheceu a vitória de Lula, mas também não apoiou a “autoproclamação” de Flávio. A avaliação é de que, com a própria eleição batendo à porta, o republicano ficou sem espaço político para contestar o pleito no Brasil, como queriam Flávio e outras figuras do seu entorno. Com isso, segundo integrantes do Planalto, a margem de manobra ficou tão reduzida que o chefe da maior potência mundial teve de “rebolar no vocabulário” para justificar a acolhida ao senador.
Nesta quinta-feira, 29, Trump disse que pretende conversar com Lula, mas de novo evitou reconhecer diretamente a vitória do petista. Questionado sobre quem havia vencido, afirmou que não queria comentar. Ainda assim, voltou a classificar a eleição brasileira como “vergonhosa”, sem apresentar motivos nem provas de irregularidades. O republicano também alegou não ter apoiado nenhum dos candidatos a pedido do presidente brasileiro. A referência é ao telefonema de setembro, quando o brasileiro pediu que não houvesse interferência no processo eleitoral.

