Orçamento, mudanças estruturais, funcionalismo e propostas que exigem quórum elevado tendem a testar lealdade dos deputados distritais

Celina Leão (PP) começará o novo governo, em 2027, diante de uma Câmara Legislativa numericamente confortável, mas com o alerta ligado. Dos 24 deputados que tomarão posse em janeiro, 17 pertencem a partidos de centro e de direita, contra sete do PT, do PSOL e do PSB. Politicamente, no entanto, a conta é menos simples. Ibaneis Rocha (MDB) chegou a governar com cerca de 18 deputados entre aliados e independentes, uma maioria que transformava boa parte das votações em rotina.

Celina, por outro lado, encontrará um plenário ainda conservador, porém bem mais fragmentado. O PL terá a maior bancada, com cinco deputados, enquanto PP, MDB e Republicanos terão três cada. Nesse cenário, a governadora não deverá ter dificuldade para formar maioria simples em projetos ordinários, mesmo tendo de negociar dentro do próprio campo político. A eleição para a presidência da CLDF já antecipa esse desenho, com as siglas de centro e de direita divididas em torno do comando da Casa. Talvez por isso Celina ainda se mantenha distante da disputa.

Em votações de quórum qualificado, a conta muda. Mudanças na Lei Orgânica do Distrito Federal precisam de dois terços dos votos, ou seja, 16 deputados, em dois turnos. A margem obriga o Buriti a ir além de sua base mais fiel. Projetos com impacto fiscal, alterações tributárias, reajustes e benefícios para servidores, reorganizações administrativas, decisões envolvendo o BRB e a própria montagem do orçamento também tendem a elevar o preço político da negociação.

A diferença em relação a Ibaneis estará menos na capacidade de aprovar projetos e mais no esforço necessário para construir cada maioria. Celina terá ao seu redor partidos ideologicamente próximos, que não necessariamente chegarão ao plenário com os mesmos interesses. O PL repetiu na Câmara Legislativa o bom desempenho que teve no Congresso e terá tamanho suficiente para apoiar o Executivo em uma votação e negociar as adesões seguintes.

A oposição também muda de tamanho e de condição. Ainda longe dos 13 votos necessários para controlar o plenário, o bloco formado por PT, PSOL e PSB terá musculatura suficiente para fiscalizar, obstruir e explorar divergências dentro da maioria. Saúde, educação, transporte, orçamento e, principalmente, o BRB devem ser o principal terreno de atuação dos sete parlamentares.