Em 2018, depois de uma palestra que fiz em Porto Alegre, o jornalista Políbio Braga me fez uma pergunta que ficou gravada na minha memória:
— O que você quer, Álvaro Dias?
Respondi:
— Quero refundar a República.
Não era uma frase de efeito. Era — e continua sendo — uma convicção.
Refundar a República significa reconhecer que o Brasil não precisava apenas de um novo governo. Precisava de um novo modo de governar. E continua precisando. Não basta trocar nomes, partidos ou ocupantes de cargos. É necessário transformar um sistema político que, ao longo do tempo, criou privilégios, estimulou o fisiologismo, alimentou o aparelhamento do Estado e, muitas vezes, transformou a política em instrumento de interesses particulares.
O problema brasileiro não está apenas nas pessoas. Está também nas estruturas que permitem que os maus costumes sobrevivam às mudanças de governo.
Foi por isso que, naquele período, defendi que a transformação deveria começar pela política. Porque é a política que organiza o Estado. E, se a política estiver contaminada, dificilmente conseguiremos construir uma administração pública eficiente, uma economia saudável, serviços públicos de qualidade e uma sociedade mais justa.
Refundar a República é romper com o presidencialismo de coalizão transformado em balcão de negócios. É acabar com a lógica segundo a qual governar significa distribuir cargos, verbas e privilégios em troca de apoio parlamentar. É substituir o loteamento político pela competência, a conveniência pela meritocracia e o interesse partidário pelo interesse público.
É também enfrentar privilégios que parecem eternos porque beneficiam aqueles que têm o poder de eliminá-los.
Uma República verdadeira não pode ter cidadãos de primeira e de segunda categoria. Não pode haver uma elite política protegida por vantagens que não estão disponíveis ao cidadão comum. Não pode haver foro privilegiado como escudo para a impunidade. Não pode haver estruturas de poder destinadas à autopreservação daqueles que deveriam servir à sociedade.
A refundação também exige uma nova relação entre os Poderes.
Executivo, Legislativo e Judiciário são instituições fundamentais da democracia. Nenhum deve se sobrepor aos demais. Nenhum deve substituir a soberania popular. E todos devem estar submetidos, rigorosamente, à Constituição e às leis.
É preciso recuperar o princípio mais simples e mais poderoso da República: o poder não pertence aos governantes; pertence ao povo.
Por isso, uma refundação republicana não pode ser confundida com ruptura democrática. Ao contrário. Refundar é fortalecer a democracia, restaurar a confiança nas instituições e devolver ao cidadão a certeza de que o Estado existe para servi-lo — e não para servir-se dele.
O Brasil tem uma Constituição democrática. Tem instituições sólidas. Tem uma sociedade madura, formada por trabalhadores, empreendedores, empresários, cientistas, agricultores, professores, profissionais liberais e milhões de brasileiros que todos os dias fazem a sua parte.
O que falta é fazer o Estado funcionar à altura dessa sociedade.
Por isso, a refundação precisa alcançar também a administração pública, o sistema tributário, o pacto federativo, a segurança, a educação, a saúde e a própria relação entre o cidadão e o Estado.
Mas a primeira reforma é política.
Porque, sem reformar a política, as outras reformas serão sempre incompletas.
Quase dez anos depois daquela conversa em Porto Alegre, continuo convencido de que o Brasil não precisa de pequenas correções em um sistema que já demonstrou suas limitações. Precisa de uma transformação institucional profunda, democrática e responsável.
Não se trata de destruir a República.
Trata-se de reconstruí-la sobre os fundamentos que nunca deveriam ter sido abandonados: ética, responsabilidade, liberdade, igualdade perante a lei, competência administrativa e respeito absoluto ao cidadão.
Refundar a República é devolver à política a dignidade que ela perdeu.
É fazer com que servir ao país volte a ser mais importante do que servir-se dele.
É substituir o velho sistema por uma nova cultura de governo.
E talvez esta seja uma das grandes tarefas do nosso tempo: não apenas mudar quem governa o Brasil, mas mudar a maneira como o Brasil é governado.
Essa é a verdadeira refundação da República.
Álvaro Dias é ex-senador da República e ex-governador do Paraná
Com passagem por diversos veículos, Diego Amorim está entre os jornalistas mais premiados da capital federal. Entre as mais de 20 homenagens na carreira, estão dois prêmios Esso de Jornalismo Econômico, dois Embratel e um Líbero Badaró. Cobriu os dois últimos conclaves, direto do Vaticano. Formado em comunicação pela UnB, tem especializações em marketing e economia. Antes de chegar ao PlatôBR, estava na direção de jornalismo da Novabrasil. É autor do livro Filho de Pandemia, lançado em 7 capitais. Amorim recebeu, em 2025, o título de Cidadão Honorário de Brasília.
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